Por: Sistema Por Acaso | 7 anos atrás

Na minha carteira profissional há dois registros vigentes. Esta situação é, seguramente, fruto da influência da cultura da região sobre a minha origem forasteira.

Logo que cheguei aqui no vale, observei que era comum as pessoas terem um emprego formal e outro complemento de renda. Num primeiro momento estranhei, pois eu vinha de um lugar onde o hábito era fazer uma roda de chimarrão com os amigos depois do trabalho e não, cumprir um expediente após o outro. Com o passar do tempo, percebi que na bandeira de Jaraguá do Sul está estampado o lema: “Grandeza pelo Trabalho”.

Não há estatísticas, mas é possível que estejamos na capital sul-brasileira do workaholic, daqueles viciados em trabalho. Esta vocação vem desde a época da colonização, com a geografia altamente desfavorável para o erguimento de um vilarejo.

A grande competitividade de homens e mulheres no mercado mundo a fora colabora para que as pessoas vivam perto dos seus limites de estresse. Basta observar as filas para consultas com os médicos especialistas.

Os smartphones têm sido grandes vilões e têm evitado que as pessoas se desliguem do trabalho. Alguns parecem passar o dia todo brincado com “tamagotchis”, aqueles bichinhos virtuais que precisavam de atenção o dia todo. Eu recebi um correio eletrônico profissional num domingo, dois de janeiro, às duas horas da tarde. O emitente estava oficialmente em férias. Logicamente, só vi o e-mail no dia útil subsequente.

Há quem coloque a vida profissional acima da vida pessoal, como uma pessoa que optou abdicar de ter filhos para poder dedicar-se exclusivamente à labuta.

            Outro dia, comparei as entrevistas de dois atores brasileiros consagrados. O primeiro, jovem, mas com a aparência desgastada e com sinais fortes de obesidade, disse não dispor de tempo para nada devido ao acúmulo de trabalho. Contou que costumava ligar do celular e gravar mensagens na sua própria secretária eletrônica residencial, com lembretes para pagar o condomínio e comprar ração. A razão da sua existência: “Eu vivo pra trabalhar”.

            O outro ator, quase sessentão, mas com jeito de quarentão, esportista, aparentemente saudável e de bem com a vida, comentou: “Eu trabalho porque preciso me manter. Se eu não precisasse, não trabalharia, iria curtir a vida”.

            Por sorte, vivemos num país democrático e o livre arbítrio nos permite viver com as nossas escolhas.

A minha meta particular é terminar o semestre com somente um emprego. Só tenho medo de ficar me sentido inútil. Neste caso, para encontrar outra oportunidade, vou imitar um colega, numa cena que presenciei:

No aeroporto de Congonhas, avistamos o apresentador Amaury Jr. O meu colega olhou pra mim e disse:

– Preciso falar com esse cara. E já saiu em direção ao sujeito.

– Amaury, por acaso não tens uma vaga de carregador de malas na tua equipe? Assim, eu poderia te ajudar levando bagagens e equipamentos. Em contrapartida entraria em todas essas festas que tu vais.

O simpático e atencioso apresentador respondeu:

– Infelizmente não temos essa vaga na equipe.

Agradecemos e nos despedimos.

O meu colega encerrou o caso dizendo:

– Não podes dizer que eu não tentei. Um emprego desse nem poderia se chamar de trabalho. Pelo jeito vou seguir tendo que te aturar por mais um tempo.

 

 Marcelo Lamas, escritor. Autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.

marcelolamas@globo.com

Publicado na Revista Blush – Ed. 21 – Maio 2011