Por: Gabriela Bubniak | 8 meses atrás

E se você escolhesse abrir mão de muitas coisas a fim de elencar prioridades e ter apenas aquilo que realmente precisa? Num mundo onde ter do “bom e do melhor” e ser bem-sucedido são sinônimos de uma vida boa, isso parece um absurdo, não é? Pelo menos era o que eu achava até conhecer alguns jaraguaenses praticantes do desapego.

Ou seja: em nome da simplicidade do ser, muitas pessoas viraram esses conceitos de ponta cabeça e optaram, sem culpa e com leveza, por uma vida simples, precisando de pouco para se satisfazer. Tudo isso em prol de uma existência mais feliz e significativa.

Agora pensa só, numa cidade como Jaraguá do Sul, regada de indústrias e culturalmente ligada ao trabalho, parece impossível viver com pouco e se livrar da zona de conforto. Pois nós conhecemos pessoas que mostram que é, sim, possível.

Os primeiros jaraguaenses da nossa nova série “Vida Simples” são Diego Nunes, de 29 anos, e Bruna Moraes, 27, um casal super gente boa e desapegado de supérfluos, e que provavelmente vocês já devem conhecer do blog A Natureza Humana e do Caderneto.

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Olha eles aí! (Foto: Rafael Verch)

Sem regras!

Antes de qualquer coisa, eles nos fizeram entender: não existe uma regra para seguir, apenas a vontade de praticar o desapego e não ligar para supérfluos. Mas calma, que ter uma vida simples não é abrir mão completamente de tudo, sair rasgando dinheiro e tudo mais, e sim encontrar o seu nível de conforto. “Não é errado ser bem-sucedido, longe disso. Mas é importante saber questionar a nós mesmos se estamos dispostos a lutar muito para chegar a algum lugar ou trabalhar menos para sustentar o conforto que você determinar”, explica Diego.

Casados há um ano (mas juntos há cinco), nos últimos quatro meses eles se mudaram para uma casa na qual dividem moradia com outro casal de amigos, assim praticam a partilha de gastos, conhecimentos e tarefas. A intenção com a mudança foi de garantir mais conforto com uma casa maior e mais espaçosa, além de estar mais perto do Centro. Eles moravam no bairro João Pessoa, e gastavam mais com locomoção. “No fim pagamos praticamente a mesma coisa com mais espaço e usamos menos o carro. Fazemos quase tudo de bicicleta”, conta Bruna.

Para chegar até aqui, o casal abriu mão de muitas coisas. Quer um exemplo? Sair para jantar. Hoje eles ainda fazem, mas com beeeem menos frequência. Assim como a compra de roupas, calçados e maquiagem, no caso da Bruna. “Vai muito de como a gente encara as coisas. A pessoa tem que analisar se mais grana vai realmente trazer benefícios, ou se na verdade você já tem o que precisa. Com o tempo, aquilo que você abriu mão não parece mais um sacrifício”, comenta Diego.

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Foto: Rafael Verch

E sabe aquela história de sair da zona de conforto? Eles contam que a maioria das coisas são feitas em casa. A mesa da sala, por exemplo, foi o próprio Diego quem fez num dia em que encarnou uma de marceneiro (risos). E ele conta que é gratificante, afinal acaba transformando objetos em história.

“Passamos por tanta correria no dia a dia, que a gente não consegue perceber certos detalhes e nos privamos de muita coisa, como cozinhar”, diz.

Como optaram por trabalhar em casa – Diego fotógrafo e Bruna designer -, eles têm a possibilidade de curtir esses momentos, além de cuidar da hortinha que cultivam nos fundos da casa. É tudo orgânico e tem muita variedade: tomate, alface, couve, rúcula, amora, feijão e tem até algumas PANCs (leia o artigo que fizemos sobre elas).

Quando perguntei a eles sobre a perda de privacidade com a mudança para viver em comunidade, me surpreendi, afinal eles não consideram esse um fator que tiveram que abrir mão.

“Não conseguimos ver essa perda de privacidade. A única coisa que mudou é que agora temos que cuidar com o que estamos vestindo ao andar pela casa (risos), usar pijamas, por exemplo. Mas temos nosso próprio canto, cada casal tem seu quarto, e acabou se tornando muito normal para nós. Trazemos nossos amigos e familiares aqui como sempre fizemos, apenas avisamos quem virá. Vivemos juntos na base da conversa. O segredo é saber que cada um tem um papel dentro de casa, entender o próximo em certas situações e praticar o desapego, e tudo fica mais harmonioso”. – Bruna

Como tudo começou?

A inspiração para a mudança de vida surgiu em 2015 durante a preparação para um mochilão que fizeram pela Patagônia. Foi preciso economizar para fazer a viagem acontecer. Além disso, durante o passeio eles optaram por dormir em barracas e caminhar para aproveitar as paisagens naturais. Lá,  tiveram contato com muitas pessoas que viviam e viajavam com ainda menos.

“Para viajar baixamos nossos nível de conforto para poder aproveitar ao máximo a viagem, e quando voltamos não restabelecemos esse nível. Encontramos um meio termo, principalmente para não viver se matando de trabalhar. Hoje temos uma vida mais tranquila e gastamos bem menos”, complementa Diego.

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Eles perceberam que as pessoas trabalham demais pra sustentar o nível de conforto que querem, e essa corrida atrás do dinheiro é desgastante. “Acaba sendo um jogo de recompensas: o trabalho (em excesso) em troca de algo. Assim, a gente acaba se sabotando sem perceber”, analisa Bruna.

Consumo consciente: a chave de tudo

A escolha de uma vida simples está interligada com a reflexão das próprias ações e a prática do consumo consciente. Quem escolhe viver com menos, acaba gerando ainda menos impacto em diversas situações, por isso é impossível falar em vida simples e não pensar em sustentabilidade. É saber entender que cada escolha vai influenciar de alguma forma no meio ambiente.

“O estilo de vida das pessoas faz toda a diferença para isso. E nós tomamos cuidado, por exemplo, na hora de comprar. Saber de onde vem aquele produto, se tem procedência, se a empresa é interessada com as questões ambientais e se aquela embalagem não vai prejudicar o meio ambiente. No fim você acaba valorizando outras coisas, como produtos de produtores locais”, diz Bruna.

Um futuro sem supérfluos

Mas o que será que pessoas que vivem de forma simples querem ou pensam para o futuro? No caso da Bruna e do Diego, os planos são muitos. Mas o principal? Ser auto-suficiente. Poder produzir o próprio alimento e por no prato tudo o que vem da horta, sem agrotóxicos, tendo a oportunidade de dividir com as pessoas.

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Filhos? Claro! E eles vão aprender desde cedo a amar e respeitar o meio ambiente, assim como valorizar as coisas que valem a pena na vida. O casal sonha com um sítio para poder montar cada cantinho e educar as crianças à sua forma, acreditando que a educação primária tem que ser em casa. E, claro, continuar sempre com a prática do baixo consumo, e passar adiante os conhecimentos que adquiriram.

Quer acompanhar o Diego e a Bruna? Eles são as pessoas mais ativas na Internet que a gente já viu! Olha só, você pode acompanhar o blog A Natureza Humana, a página do projeto no Facebook, no Instagram, e no Youtube, dá um confere lá que eles têm muita coisa linda pra mostrar e ensinar. Ahh, e também tem os trabalhos da Bruna no Caderneto. São lindos, a gente garante! 😉

Olha só esse vídeo que eles ensinam construir uma cisterna. Mais uma prova de que a vida simples é o máximo!