Por: João Marcos | 5 anos atrás

Preparem-se, notícias bombásticas vem por aí! Esqueçam de tudo o que assistiram em Django e tantos outros clássicos:

“Se você quer atingir o coração do seu oponente, mire na virilha”. Essa era a dica que William “Bat” Masterson, um dos xerifes mais famosos do velho oeste americano, dava a quem fosse se meter num duelo. Ele dizia isso porque, na média, os caubóis eram bem ruins de tiro. Nada a ver com o que aparece nos filmes de faroeste, que criaram uma série de lendas e noções que não correspondem à realidade. Uma terra sem lei, onde todo mundo resolvia as coisas na bala? O paraíso dos ladrões, que viviam saqueando agências bancárias? Um lugar cheio de mulheres sexy e oferecidas e homens heroicos, capazes de grandes feitos em suas eternas batalhas contra os índios? Na verdade, o velho oeste não era nada disso.

Até a metade do século 19, as únicas terras ocupadas pelos americanos ficavam na costa leste do país, espremidas entre o litoral e o rio Mississipi – uma faixa equivalente a menos de um quarto do território atual dos EUA. As áreas onde hoje ficam Califórnia, Nevada, Utah, Texas, Arizona e Novo México pertenciam ao México. O primeiro impulso para além do Mississipi veio com a descoberta de ouro na Califórnia, em 1848. Anos depois, em 1862, Abraham Lincoln baixou o Homestead Act, uma lei que dava terras no oeste a quem se dispusesse a ocupá-las por pelo menos cinco anos. Foi aí que o oeste americano começou a ser povoado para valer.

No começo, as cidades não tinham tribunais, exército, delegacias de polícia nem qualquer sinal de segurança oficial. É daí que brotam as histórias de atiradores rápidos e baderna generalizada. “Ter fama de bom pistoleiro era uma maneira de ser respeitado e conquistar autoridade”, diz Arthur Avila, historiador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mas é errado pensar no oeste como uma terra sem lei. Os assentamentos eram rigidamente controlados pelo governo. Quando se estabeleciam, os pioneiros tinham de enviar documentos ao Congresso pleiteando o reconhecimento de seus domínios. Feito isso, criava-se um conjunto de regras locais e se institucionalizavam os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

Pronto: o condado já podia eleger prefeito, juiz e xerife. Frederick Nolan, autor de The Wild West: History, Myth and the Making of America (“O oeste selvagem: história, mito e a formação da América”, não lançado no Brasil), conta que os xerifes tinham seus assistentes, conhecidos como deputies, e se submetiam à autoridade dos marshals – agentes da lei que representavam o governo federal. Ou seja: havia governo, sim.

E as armas? Em muitas cidades do velho oeste, o controle delas era mais rigoroso do que é nos EUA de hoje. Tombstone, Deadwood e Dodge City eram as mais restritivas. Em 1870, quem chegava a Wichita, no Kansas, via placas com avisos do tipo “Deixe seu revólver na delegacia e faça um registro” ou “Você é bem-vindo, suas armas não”. Há imagens que mostram a entrada de Dodge City, em 1879,com um outdoor onde se lê: “O porte de armas de fogo é estritamente proibido”. Compare isso com a situação atual, em que 49 dos 50 Estados americanos permitem que os cidadãos tenham armas e andem com elas na rua. Surpreendentemente, o velho oeste era mais responsável com as armas de fogo.

Por isso, os homicídios eram raros. Em média, as cidades da fronteira registravam menos de dois por ano. Mesmo nas cidades grandes, a violência não era corriqueira. As cinco maiores cattle towns, vilas formadas em torno da criação de gado, contabilizaram apenas 45 homicídios entre 1870 e 1885. Em Abilene, uma das mais violentas, ninguém foi morto entre 1869 e 1870. Ellsworth e Dodge City foram as únicas a superar cinco homicídios por ano.

Os assaltos a banco eram igualmente incomuns. Os banqueiros construíam prédios suntuosos e muito protegidos, porque queriam transmitir a noção de prosperidade e segurança a seus clientes. O historiador Larry Schweikart, da Universidade de Dayton (no Estado de Ohio), identificou apenas “três ou quatro” ocorrências desse tipo em 15 Estados do oeste entre 1859 e 1900. “Isso sem contar dois grandes assaltos, ambos feitos por Butch Cassidy e Sundance Kid, no final dos anos 1890. Mas hoje, em apenas um ano, há mais assaltos a banco em Dayton do que em toda uma década de velho oeste”, escreve Schweikart. A vida não chegava a ser pacífica, mas também não se resumia a brigas, roubos e tiroteios.

Os duelos eram raros. Quando aconteciam, eram travados longe das cidades, com hora marcada e observando um catatau de regras: era obrigatório ter testemunha, sacar as armas ao mesmo tempo, não atirar pelas costas nem mais de uma vez. Mesmo assim, quem se metia em duelos podia ser preso – porque eles eram ilegais. Um dos poucos confrontos documentados aconteceu em Springfield, Missouri, e foi relatado em 1867 pela revista Harper¿s. O protagonista foi Wild Bill Hickok,que, depois de um desentendimento num jogo de cartas, desafiou o caubói Davis Tutt (e o matou) na rua central da cidade.

Além dos duelos, havia tiroteios: confrontos desregrados e rápidos, que envolviam gangues em disputas de gado, ouro ou comércio local. O mais famoso aconteceu em 1881, na cidade de Tombstone, e entrou no folclore popular como a grande batalha de OK Corral. De um lado, Wyatt Earp e três aliados; de outro, os temidos irmãos Clanton. Mas também não foi o que se imagina. O grande confronto, na verdade, não passou de uma rápida troca de tiros. Durou cerca de 30 segundos e só 30 disparos foram ouvidos, com saldo final de três mortos e três feridos. Wyatt Earp, supostamente um herói, foi o único que saiu ileso. “Ele ficou parado durante toda a luta”, diz Nolan. Apesar disso, Earp ficou com fama de durão, e na virada do século 19 para o 20 trabalhou como consultor de filmes de bangue-bangue. Em Hollywood, ele manteve contato com John Ford, o mais famoso diretor de westerns da história. As conversas inspiraram Ford a dirigir o filme Paixão dos Fortes, que retrata os poucos segundos de embate em OK Corral como um episódio longo e sangrento.

No filme Django Livre, os atores Christoph Waltz e Jamie Foxx interpretam uma dupla de caçadores de recompensas. Mas na vida real poucos homens tinham autorização para perseguir e capturar bandidos – e ainda receber dinheiro por isso. Na maioria dos casos, os caçadores de recompensas eram sujeitos que já tinham ligação com a máquina do governo, atuando como marshals, rangers (patrulheiros) ou xerifes. “O governo terceirizava a busca de criminosos oferecendo recompensas”, diz Arthur Avila.

Desculpem-me, mas quem acabou com a sua infância foi a Super e não eu. Só repassei a info pois pode acontecer de – assim como eu – você estar sendo enganado desde criança.