Por: Ricardo Daniel Treis | 5 anos atrás

Parabéns Jaraguá por suas conquistas, principalmente na cena cultural, gastronômica e de entretenimento, que em nossos 10 anos de cobertura percebemos que chegou a um grande momento. Falando do assunto, hoje também marcamos presença no caderno especial dos 137 anos de Jaraguá do Sul d’O Correio do Povo. Eis o artigo, foi publicado na página 14:

Jaraguá cresceu e a gente não esperava. O que fazer pra se divertir quando ainda parece faltar tanto?

Oi, aqui é o Ricardo do Por Acaso escrevendo, consequência de convite recebido d’O Correio do Povo para entrarmos nesse especial do aniversário de Jaraguá do Sul. O email dava o tema: lazer, que é nossa área de cobertura na cidade desde 2003. “Só” lazer. Neste momento, olho para 4 páginas de rascunhos e um bloco de anotações ainda fumegante em minha mesa, materializando a frustrada tentativa de enumerar as cabeças dessa hidra. Gastronomia, festas, shows, compras, teatro, esporte, feiras, bazares, mostras, festivais, exposições. Reconheçamos (ó pessoas da minha faixa etária e gerações adjacentes): conquistamos tanto em tão pouco tempo… E temos um problema de comportamento com isso.

Pra ilustrar a variedade, vou falar apenas de casas noturnas. Confiram essa lista que vai (até onde acertei) por ordem cronológica: Marrakesh, Caesar’s Club, Notre Dame, Choperia da Praça, 0800, Café Confusão, Eleven, Atomium, Santo Mariachi, Casarão, Big Bowlling, Hari Om, La Santidad, Barcelona, Box Music, Sons e Vinhetas, ComBat, Licoreria, Moinho Disco, Scar Lounge, Deep, Estação do Tempo, London Pub, Patuá Music, Jump, Room, Zum Schlaucht, The Way, Fuel Living e Epic. Fosse citar todos barzinhos, restaurantes, festas independentes e clubes a lista ia longe, mas provavelmente mataria o leitor de tédio, ou pior, nostalgia – fora que minha memória tem limites. Poucos points resistiram, mas puxem pela lembrança e verão que vivemos um momento ímpar. Sem considerar os tradicionais clubes e bailes, hoje temos, por cima, sete estabelecimentos diversos como opção “agito” abrindo simultaneamente nas noites de sábado, oferta muito maior da de 10 anos atrás. Há quem ainda ache pouco, mas fato é que os proprietários destes estabelecimentos têm de suar muito para atrair/manter um número razoável de pessoas em suas casas a fim de obter média que deixe o mês no lucro. A vida noturna parece moleza, mas não é, principalmente em cidades onde a população ainda não despertou para sua (enfim) variedade de programas.

Vivemos numa comunidade com mais de 140 mil habitantes, mas tudo indica uma porcentagem baixíssima de pessoas que sai de casa. Foram poucas as ocasiões que Jaraguá comportou dois eventos numa mesma noite onde ambos resultaram em sucesso, e isso não deveria ser assim. Para o leitor considerar: seriam preciso 2.500 pessoas para lotar o London Pub, The Way, Epic Concept e Patuá Music numa mesma noite. Imaginam isso acontecendo? É difícil conceber, mas considerem que caso nesta suposta noite 5% da população jaraguaense saísse de casa para se divertir, sobrariam ainda 4.500 pessoas para socarem demais clubes, bares e restaurantes.

O jaraguaense tem opções de lazer, mas parece que não acompanhou o desenvolvimento delas. E nessa falta de descobertas fica em casa, numa tediosa bolha de conforto e inércia. Resultado disso, além da oferta de festas, enumero três consequências: a falta de estabelecimentos abertos aos domingos; a falta de shows de grande porte; e o impressionante silêncio na requisição de espaços de lazer na cidade.

Na minha contagem, o número de bares, docerias e restaurantes que declinaram à proposta de abrir aos domingos é de 9 a cada 10. “O público não sai porque não há nada para fazer, e não há nada para fazer porque o público não sai” – não há expressão melhor que defina o quadro, porém a culpa maior é da clientela. Há quem implore para que seu barzinho favorito abra aos domingos, mas feito isso, dificilmente aparece.

Já shows de grande porte, que parecem oportunidade de faturar alto, deixam os promoters com a nuca arrepiada ao lembrarem do risco. É ato heroico assumir show nacional com R$ 120 mil de custo (algo como Capital Inicial, por exemplo), onde cobrando ingresso a um preço aceitável, são precisos 4 mil pagantes apenas para empatar bilheteria. Se não parece difícil, revejam o quadro do terceiro parágrafo; ou ainda que a condição “ladies free” é praticamente pré-requisito para sucesso hoje.

Por fim, minha mágoa maior, que é a precária oferta de espaços de lazer que temos. Moro no Centro, e se esta área deixa a desejar, não sei o que dizer dos bairros. Ninguém sente falta? Dá a entender que sim. Lei da Oferta e Demanda diria que o jaraguaense é tão preso a seu lar que parece tornar desnecessário o investimento da Prefeitura em parques, palcos e praças – o que de forma alguma justificaria a omissão.

Jaraguá está completando 137 anos e quanto ao lazer, percebe-se um momento onde investimentos acontecem como nunca antes, principalmente na cena cultural e gastronômica. A cidade chegou a seu limite de demanda ou são maus hábitos que impedem o quadro de ficar ainda melhor?

Ao que parece, o que falta é o público interagir.