Por: Gabrielle Figueiredo | 3 anos atrás

Segue artigo publicado por Natália Trentini no jornal O Correio do Povo

Voo Livre favorece atmosfera turística 

Parapente

Foto: Eduardo Montecino/OCP

Dificilmente um dia ensolarado e de céu limpo em Jaraguá do Sul passa sem a presença dos parapentes no horizonte. Da cidade, quem volta os olhos em direção ao Morro Boa Vista percebe as cores dos equipamentos se confundindo com a imensidão do cenário. É a incomparável sensação de estar desprendido do chão e em contato direto com a natureza que leva uma quantidade crescente de pessoas para as alturas. Muitos fazem do parapente uma atividade habitual, outros buscam apenas o prazer de uma nova experiência.

Com um ambiente oportuno para a prática, a profissionalização do esporte foi inerente. O município conta atualmente com cinco escolas de voo, autorizadas a instruir novos pilotos, e pelo menos outros dois voadores independentes, que também realizam os chamados voos duplos. Mas, ao todo, são mais de 96 praticantes da modalidade credenciados ao Jaraguá Clube de Voo Livre, que completa no próximo mês 30 anos de fundação.

É consenso entre os próprios pilotos, além de contar com a natureza à favor, que sediar a única fábrica de parapentes das Américas amplificou as condições para o desenvolvimento de um mercado em torno do voo livre. Além do importante caráter empresarial, a Sol Paraglaiders atua diretamente com os pilotos para garantir a movimentação da modalidade. “Jaraguá do Sul é um dos berços do parapente, a asa delta se desenvolveu mais em outros pontos, mas aqui somos referência mundial no esporte, muito pela fábrica que trouxe essa especialização”, destaca o desenvolvedor de produtos da empresa e instrutor da Aprenda a Voar, Maurício Braga.

De acordo com a diretora executiva do Vale dos Encantos Convention e Visitors Bureau, Ariane Raizer, não existem números sobre a movimentação turística, mas a visitação à Sol é um dos principais chamarizes para turistas de outros países. Pessoas da Europa, principalmente da França, da Alemanha e da Suíça, da Argentina e dos Estados Unidos passam pelo município para ter a chance de conhecer o processo de produção.

O público-alvo são os amantes do parapente. “Oferecemos o privilégio de ter a única fábrica de parapentes aberta no mundo, e depois ter a chance de voar. Essa é uma exclusividade de Jaraguá, hoje os destinos são muito competitivos, é preciso levantar o dedo e mostrar o seu diferencial”, destaca Ariane.

Para a diretora, uma das principais metas para caracterizar o município como polo turístico é a organização do produto. “Você chega ao Rio (de Janeiro), cidade onde mais se pratica voo livre, e todo mundo fala sobre isso, do taxista à recepção dos hotéis. É um assunto popular. Isso ainda não acontece aqui e precisamos organizar essa informação”, finaliza.

Expoente mundial

França, Argentina, Estados Unidos, Coréia do Sul. Em lojas de 72 países a marca jaraguaense Sol Paraglaiders está presente. Em torno de 14 funcionários produzem, em média, 120 parapentes por mês e itens de vestuário esportivo. Mais de 35% dos equipamentos são exportados, o que representa 25% do faturamento da empresa.

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Foto: Eduardo Montecino/OCP

A empresa construiu nome forte, atrelado a quase todas as entidades e atletas de voo livre no país. A ideia começou junto com o início da prática na cidade. O fundador e proprietário Ary Pradi foi um dos primeiros pilotos jaraguaenses. “Eu acho que foi um sonho. Não havia em quem se espelhar. O nosso caso começou em 1991, acreditamos na globalização do mercado, mas nunca imaginamos essa dimensão, e nem era a pretensão”, pontuou.

Outro ponto chave é o trabalho próximo às escolas de voo que, segundo o empresário, são os principais agentes de vendas. A existência de profissionais capacitando mais pilotos aumenta, naturalmente, o número de interessados em praticar a atividade.

Acertando o passo com as oportunidades, a marca atravessou fronteiras, mas também buscou trazer o mundo para Jaraguá do Sul. Como a maioria das marcas de parapentes produz em fábricas genéricas em países como China, Vietnã e Sirilanca, Pradi conta que em 2002 ele percebeu que seria um diferencial abrir as portas da empresa. “Temos uma comunicação mais aberta com os clientes porque lá não existe essa possibilidade de visitação, somos a única que oferece a chance de ver de perto do desenvolvimento do produto”, finalizou.

Estrutura que beneficia o voo

Jaraguá do Sul conta com duas rampas, área de voo homologada pela Agência Nacional de Aviação Civil e uma área de pouso centralizada. Essa série de fatores, somada às condições naturais, favorece o município como destino para os praticantes de voo livre, e também para a profissionalização da modalidade. O Morro das Antenas, com 87 metros de altitude, fica há apenas seis quilômetros do centro. Já há até segunda opção, o Morro da Malwee, são 10 quilômetros.

Profissionais disseminam práticas e experiências

Praticamente todos os dias existem clientes querendo experimentar o voo duplo, afirma o piloto da escola Arte de Voar, Carlos Einke, mas os saltos dependem sempre das condições climáticas. Durante setembro a abril, considerada época de alta temporada por concentrar ventos nos melhores quadrantes, ele realiza, em média, de 20 a 25 voos por mês.

A atividade ganhou caráter profissional em dezembro de 2013, quatro anos após ele começar a praticar o esporte, que iniciou como uma brincadeira. Seu mentor foi o piloto Roberto Hruschka, que deu um voo de graça e com isso, fez Einke se apaixonar pela prática. “Comecei a me apaixonar. Foram mais de 15 voos com o Beto, antes de ele nos deixar. Trabalhei com ele vendendo voos na Praia Vermelha, e ali tudo começou”, disse. Depois de terminar a formação, ele viu potencial para aliar seu trabalho como educador físico aos voos comerciais e de instrução.

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Foto: Eduardo Montecino/OCP

A principal estratégia do piloto para aproveitar o potencial turístico do parapente foi buscar parcerias com a rede de hotéis e integrar o Vale dos Encantos Convention e Visitors Bureau. “Tive essa visão para movimentar a minha marca, é preciso trabalhar o marketing pessoal e mostrar para quem vem de fora essa opção oferecida por nós”, comentou.

Foi assim que a nutricionista de Minas Gerais, Gabby de Almeida, 31 anos, soube que poderia realizar o grande desejo de voar justamente em Jaraguá do Sul. Trazida à cidade para uma temporada de trabalho, a propaganda no hotel chamou a atenção da mineira. “Fiquei muito surpreendida, não imaginava que poderia encontrar isso aqui: aventura e natureza. Achei que estaria voando sozinha e tinham muitos parapentes. Muito bacana, foi tudo lindo”, contou.

Apesar de existirem cinco escolas e ao todo nove pilotos credenciados para atender à demanda, Einke afirma que existe muita interação. O objetivo é comum, fortalecer a modalidade em parceria.