Por: Sistema Por Acaso | 4 anos atrás

Para que você que está por fora do que está rolando na Ucrânia desde o final do ano passado, este vai ser um longo post informativo pra te deixar por dentro de tudo. Antes de começarmos, algumas coisas que você precisa saber:

– A “invasão russa” é um das consequências dos protestos que vêm acontecendo na Ucrânia desde o final de 2013. A Ucrânia foi separada da antiga USSR por voto parlamentar em 1991, porém boa parte da população, especialmente na metade oriental da Ucrânia, é composta de imigrantes russos que consideram o país uma espécie de “estado” russo. As manifestações que estão ocorrendo na Ucrânia já foram vastamente difundidas na mídia no final do ano passado. Protestos inicialmente de natureza pacífica, sendo respondido de forma violenta por parte do governo, com registros de várias mortes e alto número de feridos.
– Viktor Yanukovych: Vencedor das eleições de 2010 na Ucrânia. Seu mandato, até o momento da sua deposição, foi responsável por levantes da população contra algumas das medidas políticas adotadas. Como a suspensão das preparações de um acordo de troca com a União Européia em novembro de 2013, logo após o abandono deste acordo, o governo de Yanukovych entrou em contato com o governo russo em busca de cooperação comercial, uma troca bem menos favorável do que a original. Esta série de eventos foi a maior responsável pelo começo dos protestos em Kiev. Deposto 3 meses após o começo das violentas manifestações, atualmente Viktor está em abrigo na Rússia.
– Yulia Tymoshenko: Juntamente com Viktor Yuschenko, eram os principais membros do partido rival ao de Viktor Yanukovych nas eleições de 2010. Embora as eleições tenham sido consideradas “limpas” e a derrota aceita sem maiores complicações, logo após a tomada de cargo de Yanukovych, Yulia foi indiciada por abuso de poder e sentenciada a 7 anos na prisão, gerando revolta popular.
– Relação Rússia x Ucrânia: Mesmo após a separação dos dois países em 1991 não podemos esquecer que a Ucrânia ainda é dependente da Rússia, sendo mais notável na área econômica, e o abastecimento de gás o grande trunfo russo. Em 2012 segundo informações oficiais as exportações ucranianas para a Rússia passaram dos R$165 bilhões, enquanto as importações somaram R$203 bilhões. Esta dependência faz com que a Russia exerça forte influência nas tomadas de decisões políticas ucranianas – abandono do acordo de troca com a União Européia -, pode-se entender que a batalha pela Ucrânia é na verdade sobre a influência e o alcance do Ocidente no mundo, após a queda da União Soviética, a Rússia se enfraqueceu perante o resto do mundo. No final de 2013 a Rússia anunciou a compra de diversos títulos do governo da Ucrânia e ao mesmo tempo a redução no preço do gás vendido ao país vizinho, aumentando ainda mais a influência russa sobre a Ucrânia.

Para muitos, a Ucrânia é o vértice geográfico onde se disputa uma nova versão da Guerra Fria.

Em 2014 os protestos ficaram mais intensos, para tentar amenizar a situação, foram sancionadas leis anti-desordem. Estas foram comentadas por diversas nações ao redor do mundo por seu teor extremamente anti-democrático, milhões de pessoas saíram as ruas para protestar nas principais cidades ucranianas. Desta vez mais violentos, os protestos envolveram carros queimados e bombas caseiras, sendo reprimidos com policiais armados usando balas de borracha e canhões de água.

A partir da segunda metade de janeiro são declaradas as primeiras mortes durante os protestos, algumas cidades do país são praticamente um campo de guerra. Alguns dos mais importantes ativistas contra o governo de Yanukovych são encontrados mortos durante o primeiro mês do ano, talvez um dos casos mais repercutidos foi o de Dmitrii Bulatov, que foi sequestrado, torturado e crucificado. Perto do final do mês os protestos já acontecem em todo o país, manifestantes começaram a invadir e tomar os prédios do governo. Na parte oriental da Ucrânia onde a população apoia fortemente a Rússia sobre a União Européia, bandeiras russas foram hasteadas no local das ucranianas. Já na parte ocidental, as manifestações tem como objetivo a deposição do presidente Yanukovych.

Manifestantes pró-Rússia erguem bandeira russa na cidade de Kharkiv, segunda maior cidade do país, na parte oriental da Ucrânia

Com a forte pressão internacional e crítica situação no país, o Primeiro Ministro ucraniano Mykola Azarov resigna ao seu cargo, e como consequência o parlamento anula a controversa lei anti-protesto. Na segunda semana de fevereiro, todos os 234 protestantes presos desde Dezembro são liberados da prisão. No dia 18 de fevereiro os manifestantes na cidade de Kiev, capital ucraniana, tomam a prefeitura e os outros prédios chave da cidade, neste dia foram 18 pessoas declaradas mortas, 7 delas policiais.

No dia 20, o centro de Kiev é tomado pelo caos, em 48 horas de confronto são declaradas mortas 77 pessoas, com centenas de feridos.

“Independence Square”, no centro de Kiev, no dia 20 de fevereiro, o mais violento de protesto

Confira no vídeo abaixo: snipers, supostamente do governo, atirando em manifestantes desarmados em Kiev.

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Após estas chocantes imagens se espalharem rapidamente pela internet, três representantes da União Européia e um da Rússia se reúnem para buscar uma solução e evitar mais casualidades. Enquanto a situação se acalma na parte ocidental, na região oriental ainda alguns focos de violência são detectados, onde manifestantes ocupam prédios públicos e não reconhecem a autoridade do governo ucraniano.

No dia 22 o que resta do governo ucraniano anúncia que novas eleições serão feitas no dia 25 de maio. O presidente Viktor Yanukovych, já deposto, é visto nos arredores de Kharkiv, “parte russa” da Ucrânia. Yulia Tymoshenko, que estava presa desde 2010 é liberta. Logo após, Olexander Turchynov é anunciado como novo presidente interino e começa a abordar a ideia de possível separatismo tomar conta. Enquanto isso, mandato de prisão é expedido para Viktor Yanukovych, acusado de corrupção.

No dia 26, é escolhido o novo primeiro ministro da Ucrânia, Arseniy Yatsenyuk, como primeira ação ele dissolveu a unidade de polícia de elite da Ucrânia, suposta responsável pela maior parte das mortes de manifestantes durante os protestos. Iniciam-se novos protestos contra o novo governo ucraniano na península de Crimea, no sul do país, que também tem boa parte da sua população imigrantes russos. No dia 27, na capital de Crimea, ativistas pro-Rússia, armados, tomam conta dos principais prédios da cidade.

No dia 28, soldados usando trajes sem nenhum tipo de identificação e armamento pesado, aparecem guardando pontos chaves da península de Crimea, como aeroportos e fronteiras. O medo de uma intervenção armada por parte da Rússia toma conta. O ex-presidente Viktor Yanukovych é flagrado abandonando o país fugindo para a Rússia.

Soldados sem nenhum tipo de identificação tomam conta de pontos estratégicos em Crimea

No último sábado, dia 1 de março, o parlamento russo aprovou um pedido do presidente Vladimir Putin que autoriza o uso de forças militares em solo ucraniano, como resposta o presidente ucraniano Olexander coloca o seu exército em alerta total. Muitos protestos pró-Rússia tomam conta em diversas cidades ucranianas fora de Crimea, incluindo Kharkiv. Os países do ocidente demonstram preocupação devido a brusca ação russa. O presidente dos Estados Unidos Barack Obama falou com Vladimir Putin por mais de 90 minutos por telefone pedindo a remoção das tropas russas da península de Crimea, porém a ideia não foi bem recebida pelo presidente russo que diz estar protegendo os interesses de imigrantes russos em solo ucraniano.

Ontem, dia 03, correram pela rede notícias que autoridades russas na região estariam pedindo a remoção de toda a força militar ucraniana de Crimea de forma pacífica ou seriam tomadas providências drásticas. Por possibilitar fácil conexão com solo russo, a península é um ponto estratégico de qual a Rússia não quer abrir mão.

Hoje pela manhã diversos sites de notícias comentaram sobre a denúncia ucraniana de um suposto ultimato russo, onde todas as forças armadas do país devem se render ou enfrentar ataque. A frota russa no Mar Negro desmentiu que o ultimato tenha sido lançado, porém a situação está mais tensa do que nunca.

Depois do anúncio do despacho de tropas russas para Crimea, a Conselho de Segurança da Onu fará uma reunião de emergência neste Sábado para discutir sobre o assunto.