Por: Max Pires | 01/02/2011

 

tim maia

O cantor e compositor carioca Tim Maia (1942-1998), que terá disco relançado, em foto do início da década de 70

Sob o título “Edital de Comunicação”, seguia: “Vimos informar que a Vitória Régia Discos Ltda e a Sony Music Entertainment (Brasil) Ltda vêm procurando entrar em contato com músicos instrumentistas que participaram da gravação do disco ‘Tim Maia Racional 3’ para fim de concessão de autorizações relativas […] a lançamento de CD do referido artista”.

A nota não deixava dúvidas: o selo de Tim Maia (Vitória Régia) se unia a uma multinacional (Sony) para, enfim, colocar na praça o mitológico álbum inédito gravado pelo músico em 1976.

Em projetos de edição de material histórico como esse, faz parte dos trâmites legais que a gravadora responsável pelo lançamento procure todos os artistas envolvidos nas gravações originais. Os não encontrados devem ser avisados por meio de publicação de anúncio em veículo de grande circulação.

Procurada, a Sony faz questão de guardar segredo sobre quase tudo o que envolve o lançamento. Abre apenas que o álbum será lançado em maio. A princípio, somente em bancas de jornal, em coleção que envolve outros 14 títulos de Tim Maia.

 

CULTURA RACIONAL

Vendidos a peso de ouro em sebos, os LPs “Racional Vol.1” (1975) e “Racional Vol.2” (1976) foram bancados pelo próprio Tim.

O músico havia se convertido à Cultura Racional e pregava os preceitos da seita, segundo os quais o ser humano poderia retornar à sua origem (aquela da questão “de onde viemos?”) a partir de instruções de um extraterreno, o Racional Superior.

Envolvido por essas ideias, ele parou de beber e de usar drogas. Límpido como nunca, seu vozeirão chegou a performances inacreditáveis em dois álbuns clássicos, possivelmente os mais importantes do funk e da soul music nacional.

As faixas que darão origem ao terceiro volume são os últimos momentos de Tim nessa fase (ele abandonaria a seita em 1976 e renegaria os LPs até sua morte). E, até serem descobertas, em 2000, não se ouvira falar delas.

O mote segue o mesmo. Em português e inglês, ele faz pregação da “escrituração racional”, segundo a qual “a pessoa fica ligada pela energia racional: a energia pura, limpa e perfeita/ E fica desligada da energia animal: a energia elétrica e magnética, causadora de todas as ruínas da humanidade”.

As novas gravações foram encontradas por acaso pelo produtor Dudu Marote. “Estavam dando sopa na casa do [engenheiro de som] William Luna Jr. havia décadas”, diz. “Ouvimos as faixas e descobrimos que eram inéditas.”

Dono do estúdio Somil, o pai de Luna reteve o material em 1976 porque Tim não havia pago os honorários.

Luna Jr. diz que, uma vez descobertas, as faixas foram apresentadas a gravadoras em 2000, mas nenhuma se interessou. “Agora, voltou para a família de Tim. Pagaram as despesas do estúdio e têm direito aos takes.”

O material bruto, que vazou na internet há dois anos, ganha agora produção do carioca Kassin (Orquestra Imperial). Ele também está impedido de falar no assunto por questões contratuais.

Segundo a Folha apurou, Kassin vai recrutar músicos que estavam nas sessões originais de gravação para terminar algumas faixas que ficaram incompletas. Paulinho Guitarra e Serginho Trombone estão cotados.

Via Folha.