Por: Ricardo Daniel Treis | 5 anos atrás

A notícia tem algum tempo (é do fim do ano passado), mas de vez em quando ainda rende alguma repercussão na imprensa e nas redes sociais do patropi: a China proibiu atividades religiosas que visem ao lucro. Ora, não morro de amores pelos chineses – o regime político, pelo menos –, mas não pude deixar de esboçar um sorriso com a norma.

Tenho a impressão de que o tema só voltou à agenda por causa da matéria “The Richest Pastors in Brazil”, da revista “Forbes”, na edição de janeiro deste ano, na qual são apresentados os valores das fortunas dos milionários pastores brasileiros. E também por uma matéria posterior, publicada em março, que aponta o bispo Edir Macedo como um dos novos bilionários do País. O homem é birrico, gente.

É óbvio que qualquer brasileiro de bom senso fica logo a imaginar como seria se a proibição do lucro religioso também fosse aplicada no Brasil. É claro que a casa caía… ou melhor, o templo. Porque todos sabemos que a exploração da ingenuidade das pessoas mais humildes e indefesas é fórmula certa para ganhar dinheiro. Muito dinheiro, como a revistona norte-americana mostrou.

O problema é que a proibição só pode funcionar em países com tendência para o autoritarismo. Porque numa democracia, mesmo que incipiente como a brasileira, as religiões dão forma a àquilo que Karl Popper chamou paradoxo da tolerância: “Se formos de uma tolerância absoluta, mesmo para com os intolerantes, e se não defendermos a sociedade tolerante contra seus assaltos, os tolerantes serão aniquilados, e com eles a tolerância”.

Em que pese a minha rejeição a Popper, acho que esse aviso merece ser levado em conta. Tolerar os intolerantes é um risco. E seria bom ver a proibição do lucro das igrejas. Mas esse desejo está na proporção inversa da esperança de realização. É que o Brasil está se consolidando como uma espécie de criptoteocracia, onde as igrejas adquiriram um peso político que nenhum partido do arco do poder ousa enfrentar. Pelo contrário, a norma é tê-los como aliados.

Portanto, no Brasil é muito mais difícil que a China (quase impossível). Porque os religiosos tomaram posse dos aparelhos do Estado e inauguraram um novo modo de produção: o teocapitalismo selvagem, onde a sacanagem é feita em nome de Deus.


Texto de José Antonio Baço, com grifo meu no penúltimo parágrafo.