Por: Sistema Por Acaso | 5 anos atrás

Numa época, eu era famoso por ajudar os amigos com seus problemas com os temíveis TCCs, os Trabalhos de Conclusões de Cursos universitários. Começou por causa da congruência das minhas profissões. Em algum momento, a rapaziada que trabalhava comigo, chegava ao final da faculdade, olhava para o lado, e pensava: “O cara ali também trabalha de professor. Opa, ele pode me ajudar!”. E eu ajudava, na filantropia.

Sempre achei uma tortura psicológica, independente da latitude da instituição. Vi pessoas perdendo os cabelos – e os fios não voltaram. Vi gente engordando, emagrecendo drasticamente e sempre com o efeito contrário daquele que desejavam. Teve quem passou a usar óculos. Gastrite então, nem se fala.

A minha única dica era: “Faça o trabalho que o professor quer. Não o que você quer”. Lembro do meu caso, quando estava no “cargo” de aluno. O sujeito mandou eu mudar tantas vezes aquele negócio, que a versão final era a primeira que eu tinha sugerido.

Como “ajudante”, passei por situações pitorescas. Uma guria me procurou de última hora, desesperada. Ficamos até alta madrugada montando a apresentação. Ela estava tão exausta que me perguntou se Brasil se escrevia com letra maiúscula. E o pai dela, babando no meu sofá. Essa era de família, hein?

Teve outra, que eu só respondi algumas perguntas, e uma delas foi o único erro apontado pelo avaliador. Imagine o olhar atravessado da “alemoa” lá da frente, me procurando na platéia. Eu sempre ia assistir. Um outro, entendia do assunto, o contexto estava ótimo, mas a intimidade dele com o idioma era pouca. Sugeri que procurasse um professor de português para reescrever.

E recentemente, uma estagiária de engenharia. Eu explicando para ela um processo de usina onde entrava a cana-de-açúcar e, no final, sobrava um bagaço, usado para gerar energia. Era a véspera e acho que ela tinha tomado umas doses cavalares de calmantes. Eu dizia: “Entra a cana e sai o bagaço”. Ela dizia: “Entra o bagaço e sai o bagaço”. Eu repetia e não adiantava. Ela: “Entra o bagaço e sai o bagaço”.

Eu precisava achar um exemplo contundente, um erro daquele poderia ser fatal. Não encontrei outro que fosse mais ameno:

– Pensa num filme pornô!

– Ãh!?

– Sim,no início as atrizes estão de roupa e com maquiagem impecável.

– Ãh!?

– E no final, elas estão um bagaço. Entendeu! O bagaço é só no final!

No outro dia, ela foi aprovada e com menção honrosa.

 

Marcelo Lamas, autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora” – marcelolamas@globo.com
Publicado na edição impressa de O Correio do Povo.