Por: Ricardo Daniel Treis | 3 anos atrás
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Ricardo Depiné junto aos sócios Acácio e Madri

Piercing se tornou tão popular nos dias de hoje que é até difícil lembrar o tempo – nem tão distante assim – em que o acessório era relacionado estritamente com a cultura underground. Dos primórdios desse movimento ao contexto atual, Ricardo Depiné esteve presente. Impossível calcular quantas pessoas foram perfuradas pelas mãos técnicas e precisas desse profissional, mas seguramente ele foi o responsável por colocar os primeiros piercings em solo jaraguaense.

Não foi a televisão, muito menos a internet – totalmente inacessível naquela época – que introduziu Depiné a esse mercado. Foram páginas de revista, raras e importadas, que traziam informações sobre esse universo que há quase 20 anos é sua profissão. Ele é testemunha de cada evolução do setor, tanto técnica, quanto cultural.

“Era tudo bem complicado, não tinha aonde você encontrar informação. Era pelo boca a boca do pessoal. Pegava umas dicas aqui e outra ali. Mas era tudo muito fechado ainda, quem sabia não queria compartilhar”, conta.

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No estúdio montado em casa no início dos anos 2000

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Geral do primeiro estúdio, início dos anos 2000

O interesse pela atividade despertou em 1995, quando ele não passava de um adolescente, no alto dos 15 anos. Mas desde o começo, quando construiu uma máquina caseira de fita para tatuar amigos, tentava manter uma visão apurada para o profissionalismo.  Tanto que desde o principio teve o pai e a mãe como aliados. Quando ganhava dinheiro para ir a algum festival de rock em cidades maiores da região, preferia dispensar os gastos para fuçar as bancas.

Primeiro piercing de língua aplicado, em 1996. "O cliente tem até hoje". Foto: acervo pessoal

Primeiro piercing de língua, aplicado em 1996: “O cliente tem até hoje”. Foto: acervo pessoal

Depois de distribuir os primeiros traços, o pai viu potencial e incentivou comprando o primeiro kit profissional. Como o material chegou às mãos de Depiné totalmente desregulado, ele foi atrás de ajuda. Em contato com os fornecedores, recebeu indicação para procurar um profissional de Joinville, o Maga, que nos anos seguintes se tornou uma espécie de mentor. Com uma receptividade grande, o tatuador compartilhava abertamente suas experiências.

Depiné, Zumba e Maga Tattoo, na Convenção  Internacional de Tatuagem de SP, ano 2000. Foto: acervo pessoal

Depiné, Zumba e Maga Tattoo, na Convenção Internacional de Tatuagem de SP, ano 2000. Foto: acervo pessoal

“Foi em 1997 que ele me convidou para tatuar, eu achava que não estava preparado. Fui morar em Joinville e foi mais ou menos a época em que o piercing chegou no Brasil. Eu decidi me especializar naquilo, ia me aprofundando e paralelamente continuava a tatuar”, lembra.

Tatuando no Maga Tattoo - Joinville, 1998. Foto: acervo pessoal

Tatuando no Maga Tattoo – Joinville, 1998. Foto: acervo pessoal

EXTRA: Uma matéria do AN de 1998, entrevistando Piero e Depiné sobre essa “curiosa novidade”, o piercing

Foram viagens a São Paulo, cursos e seminários para conhecer bem as técnicas. De assistente, virou sócio de Maga e paralelamente atendia os clientes em Jaraguá do Sul, sempre nos fins de semana, em uma sala em frente à casa dos pais. Essa rotina continuou até 2000, quando Depiné entrou para o curso de Design, na Univille, e se mudou para Balneário Camboriú.

Depiné junto a André Meier, pioneiro no piercing profissional no Brasil, em 2000. Foto: acervo pessoal.

Depiné junto a André Meier, pioneiro no piercing profissional no Brasil, em 2000. Foto: acervo pessoal.

A formação nunca ganhou caráter profissional. Depois do período no litoral, ele voltou para a cidade e continuou imergindo mais e mais no aprimoramento da colocação de piercings. Entender a anatomia, cuidado na manipulação dos materiais e a precisão são elementos fundamentais. Hoje, dispensa o uso das pinças apoiado pela técnica free-hand. Segundo Depiné, a experiência trouxe a firmeza e conhecimento do corpo humano e com as mãos livres ele consegue ter maior sensibilidade na hora da perfuração.

Atendendo no estúdio da Reinoldo Rau, 2004. Foto: acervo pessoal

Atendendo no estúdio da Reinoldo Rau, 2004. Foto: acervo pessoal

“Perfuração todo mundo faz. Mas é preciso estudo técnico para fazer um bom trabalho, um furo duradouro que vá cicatrizar bem. Com o free-hand eu sinto pelo tato, ponto a ponto cada camada de pele. A anatomia importa muito, se alguém quer em um local que não vai cicatrizar, eu me recuso, prefiro perder o trabalho”, completou.

Depiné, Ale Amorin e Acácio, 2005

Depiné, Ale Amorin e Acácio, 2005

Voltando a linha do tempo, Depiné permaneceu atuando individualmente até 2004 quando firmou a parceria que mantém até hoje com o Acácio e a Madri. O primeiro ponto do trio foi na Rua Domingos Rodrigues da Nova. Para ele, aliar dois profissionais em áreas que tinham conexão foi fundamental para consolidar o trabalho.

O estúdio na Rua Domingos da Nova, em 2005

O estúdio na Rua Domingos da Nova, em 2005

A parceria deu tão certo, que evoluiu para a sociedade no Sacramentum Pub, bar aberto em 2010 nos fundos do atual estúdio. Ambos os espaços, coroados pelo público, comemoram esse sucesso com expansão (confira o artigo “O Sacra vai mudar de endereço“).

A mudança não tem data exata, mas os planos estão traçados. O Sacra vai para prédio mais amplo, na esquina da Avenida Getúlio Vargas com a Avenida Marechal Floriano Peixoto. Já o estúdio se lança alguns metros mais próximo à praça, na Rua Quintino Bocaiuva. Nas duas frentes, o trio busca manter a relação estreita com os clientes.

Celebrando o primeiro aniversário do Sacra, em 2011

Celebrando o primeiro aniversário do Sacra, em 2011

Toda a evolução é atribuída por Depiné à relação com o body piercing. Cada pequena conquista de vida surgiu da visão de um jovem que teve o ímpeto de se aprofundar em algo que, ao primeiro olhar, não prometia grandes resultados profissionais. De onde veio exatamente essa vontade? Para ele, é um misto de várias questões. Desde a atmosfera cultural, gostos pessoais, ao olhar curioso.

Estrutura do estúdio atual

Estrutura do estúdio atual

“Eu nasci em 80. Vivi a década de 90 vendo o movimento grunge, o hardcore do Biohazard, bandas como Machine Head e sempre fui muito fã do Sepultura. Eu curtia o visual da tatuagem, buscava o acesso a música alternativa em lojas como a Rock Total, depois a Abrigo Nuclear do Tito. Acho que isso tudo pode ter influenciado, mas é o que eu sempre fiz e se hoje tenho alguma coisa, veio dali”, finalizou.

Snoopy e Depiné, convenção e seminario de piercing avançado, 2010

Snoopy e Depiné, convenção e seminario de piercing avançado, 2010

UPDATE: A leitora Giovana Dalagnollo nos enviou a imagem de um cartão do Depiné, que ela ganhou quando colocou seu piercing, há cerca de 15 anos atrás. “Me lembrei que havia guardado o cartão numa agenda que usava na época… é uma relíquia”, conta.

cartão depiné