Por: Raphael Rocha Lopes | 6 anos atrás

Já escrevi aqui sobre o que as religiões podem fazer com o ser humano. Ou o que os seres ditos humanos podem fazer em nome da religião com outros seres humanos, normalmente inocentes e que nada têm a ver com o exagero alheio. Milhões de mortes podem ser contabilizadas na conta desta intransigência teológica. Por isso sempre alimentei – e continuo alimentando – minhas desconfianças com tudo o que é radical, principalmente quando se trata de religião.

Agora vemos mais um capítulo desta tristíssima história de irracionalidade religiosa. Todos os jornais, escritos e televisivos, trataram do episódio envolvendo Malala Yousafzai, a menina que foi baleada em um ônibus pelos talebans por defender a educação em sua terra, em especial para as meninas e mulheres.

Dois parênteses muito particulares. Em primeiro lugar, esta menina já é uma de minhas heroínas. Um breve histórico da vida dela, a seguir, pode justificar aos leitores minha opinião. O segundo ponto, passarei a tratar os talebans (talibãs, talebãs ou talibans, como queiram) de talebestas daqui em diante.

O taleban é um movimento fundamentalista islâmico nacionalista difundido no Paquistão e no Afeganistão, sendo que neste país tomou o poder entre 1996 e 2001 (lamentável período onde arte e educação foram dizimadas pelos radicais, inclusive com a destruição dos gigantescos Budas de Bamiyan, patrimônio da humanidade que tinham sobrevivido a mais de 1500 anos).

A bem da verdade os radicais talebestas foram armados e preparados pelos Estados Unidos na década de 1980 para que combatessem os soviéticos que queriam dominar o Afeganistão. Como se viu com as Torres Gêmeas, no malfadado 11 de setembro, o feitiço virou contra o feiticeiro.

Malala Yousafzai é o outro lado da moeda. O lado bom da moeda. O lado da luta, da vontade, da consciência, da liberdade, da esperança, da gana (no bom sentido), do futuro, do multitudo.

Malala é uma estudante paquistanesa, nascida em 1997, que passou a ser mundialmente conhecida pelo seu ativismo em favor dos direitos das mulheres, especialmente no que se refere aos estudos, eis que na região que morava, no Vale do Swat (Paquistão), as meninas eram proibidas de frequentar a escola. Em 2009, ou seja, com poucos 11 anos de idade, Malala ganhou visibilidade por conta do blog que escrevia para a rede BBC falando de sua vida e dando seu ponto de vista sobre os problemas da região. Já ganhou diversos prêmios pela paz, destacando-se o Prêmio Paz Internacional da Criança Desmond Tutu e o Prêmio Nacional da Paz do Paquistão.

Infelizmente, porém, um talebesta atirou na menina atingindo sua cabeça e pescoço quando ela voltava para casa, vindo da escola que tanto defendeu. Seu estado é crítico, mas já conseguiu ser transferida para a Inglaterra. Os talebestas continuam a ameaçá-la dizendo que se sobreviver a essa covarde ataque não descansarão enquanto não matá-la.

Lamentável.