Por: Sistema Por Acaso | 6 anos atrás

A gravidez estava prevista para as vésperas da final do mundial de clubes e o pai, fanático pelo time brasileiro que iria jogar, dizia para a grávida: “Não inventa de ter o nosso filho na noite do jogo.”, brincando com o improvável.

O jogo era no Japão, à meia-noite daqui. Na cidadezinha não havia hospital e a gestante estava de sobreaviso. Bingo! Por volta das 23h, ela sentiu contrações. Em seguida o casal caiu na estrada. E o jogo começou. Nas ondas médias do rádio, o sinal sumia abruptamente e, seguindo a Lei de Murphy, sempre quando a bola se aproximava do gol e o locutor aumentava a emoção: “Entrou na área, chutou… shshshshshshshshsh”. E o pai com a ansiedade no limite.

Deu tudo certo. O time foi campeão e o bebê nasceu só depois que o jogo terminou. O pai queria colocar no menino o nome do zagueiro campeão: Baideck! Por sorte a mãe interveio e o garoto não ficou com a graça, mas joga futebol igual ao Baideck: truculento, joga com as asas abertas, sempre deixa alguém caído no chão.

Tornou-se meu amigo. É famoso por causa dos seus superlativos. Aumenta tudo: “Sabe a mais gata da festa? Advinha com quem ela ficou?”.

Eu acho que é influência daquela noite, do nascimento. Quanta gente torce pra um time que nunca ganhou nada ou esperou na fila quase a vida toda? Pela lógica, o meu amigo tinha tendência a ser um “se achão”.

Ele virou boêmio profissional. Seria influência do nascimento na madrugada? Tinha uma lista de conquistas. Mas, meses atrás voltou da praia apaixonado. Perdia a fome. Só falava na castelhana. Não era uma tupiniquim. Elogiava pra todo mundo os predicados da hermosa: bonita, corpão, inteligente, modelo.

Bem, como todo mundo estava acostumado com os seus exageros, ninguém deu muita bola. E ele continuava fazendo ligação internacional, mostrando mensagens no celular.

Um outro que testemunhou a ficada, atestou as voluptuosidades da guapa. Então, desta vez não seria exagero do cara?

Pra piorar, dia desses, ele mandou um e-mail pra galera. Lá estava a capa da Playboy argentina. E a guapa como estrela do mês. E a gente foi lá no site conferir, não as curvas da chica, logicamente, mas se o ensaio era verdadeiro. Foi difícil aguentá-lo por um bom tempo.

Como disse Millôr: “O cara que fala muito acaba dizendo coisas que ainda não aconteceram”. Mas às vezes essas coisas podem vir a acontecer. É sempre bom não duvidar do destino.

Marcelo Lamas, escritor e autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com