Por: Gabrielle Figueiredo | 3 anos atrás

A festa dos amigos de Jaraguá do Sul, a Stammtisch, ou “Stamm” para os íntimos, sempre rende boas histórias. Parece que a cidade inteira está ali, divida em pequenas barracas de confraternização. As tribos acabam se misturando e ocorrem mal entendidos, como o cara que é o bonzão quando sozinho na academia, mas que ali na festa está de mãos dadas com sua namorada ciumenta e, quando cruza com aquela bonitona que ele vive puxando assunto tipo “o solstício de inverno”, o cara fica desejando ser invisível, mas a gostosa dos treinos abre aquele sorriso e diz “oi” e não precisa mais nada para o cara ter que se explicar, inclusive quem era a outra “turbinada” – que ele nunca viu – e que estava circulando junto com a “perva” da academia.

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Foto: Divulgação

Estes adjetivos nem são meus, são os que ouço as esposas dos caras dizerem. A estratégia de montar os grupos com casadinhos numa barraca e maioria avulsa em outra, ameniza, mas não resolve, uma hora alguém vai circular.

Numa edição passada, o nosso pessoal foi de táxi e eu, levei alguns, já que não bebo. Perguntei para o cara do estacionamento: “até que horas amigo?”, respondeu “até terminar”…

Na nossa barraca de solteiros tudo ocorreu bem, depois de uma certa altura, apareceu uma gatinha chorando copiosamente. Parecia ser mais manha do que choro, mais teor alcoólico do que outra coisa. Entrou dizendo: “Perdi meu celular! Perdi meu celular!”. E já pulou um voluntário mal/bem intencionado consolador para socorrê-la – se não me falha a memória, até as lágrimas dela, ele enxugou.

A guria esbravejava: “O celular era da empresa! Tava com o meu chip! Vou ser demitida, ainda estou em experiência! Buáááá!”.

Fui ajudar:

– Tu achas que perdeste o celular, por aqui?

– Sim, foi aqui na barraca!

– É que eu não te vi aqui antes…

Foi então que a guria olhou para a estampa da nossa turma, na minha camisa e disse:

– Gente! Eu to na barraca errada!

E vazou com a cara vermelha de choro e de vergonha.

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Depois que escureceu, uma das meninas da nossa barraca resolveu dar um selinho num argentino que estava por ali.

Adiante o pessoal começou a vazar. Tive que correr até a portaria para buscar um amigo que estava de carona comigo e saiu cambaleando. Recolhi todos que estavam “sob minha responsabilidade” e o argentino veio a tiracolo da guria.

Falei pro vigilante do estacionamento: “Só ficaram dois carros?” e o cara: “o outro carro é o meu!”.

Quando chegamos no carro, apareceram outros dois argentinos e eles não entendiam que, mesmo que coubessem na minha barca, só poderia levar 4 pessoas. Um deles seguiu viagem.

O primeiro a descer seria o argentino enamorado, mas ele se recusou. Disse que ela tinha que descer junto para conhecer a casa dele – que era uma Kombi azul dividida com os comparsas. A guria não queria ir com ele. Mas o cara era insistente, puxava ela pelo braço, fazia cara de choro, se dizia apaixonado.

Esta cena demorou e eu já estava cansado do dia e da demora, tive que usar da minha grosseria:

– Ô companheiro, ela não vai descer contigo. Aqui no Brasil as gurias só avançam o sinal se estiverem depiladas.

O argentino ficou me olhando com cara de abobado. Rechacei:

– É isso mesmo! Vaza! Deve ser o caso dela. Não quer dizer que ela não gostou de ti ou que não poderá ficar contigo outra vez.

Dias depois, ela me contou que o hermano arrumou um celular emprestado, ainda naquela noite da Stamm, e mandou mensagem com uns desaforos.

Em tempo: A outra moça que citei, do celular da firma, também naquela noite, foi procurar o telefone na casa do meu amigo consolador. O cara que na Stamm oferecera o ombro para ela, recusou-se a colaborar com minha crônica, logo, não pude comprovar minha tese sobre a depilação.

Marcelo Lamas é escritor. Autor de “Indesmentíveis” (Camus Ed.- 2015), à venda nas livrarias Grafipel e do Pedrinho.

marcelolamas@globo.com