Por: Sistema Por Acaso | 3 anos atrás

Depois de duas décadas colaborando com a imprensa fica difícil achar algum assunto que eu não tenha me atrevido a escrever. Falar sobre Jaraguá do Sul é um tema recorrente no meu currículo. Cheguei a ser convidado para apresentar a cidade em um suplemento que trazia todos os munícipios de Santa Catarina, tentei recusar o convite, por não ser um jaraguaense nato, mas fiz o serviço, com a condição de esclarecer a gentileza desse povo com este forasteiro.

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Noutra ocasião, quase fui acusado de falsidade ideológica, por uma jornalista gaúcha, numa feira do livro daquele estado, quando me apresentei como sul rio-grandense e a guria, cumprindo com seu dever de checar, me questionou sobre toda a informação minha na internet me caracterizando como “jaraguaense”, mostrando esta receptividade que tenho desde 1995.

Percebi que a coisa caminhava para um “relacionamento sério” quando, há mais de dez anos, uma pesquisa da mídia local apontou “a cara de  Jaraguá do Sul” através de 30 sub celebridades. Fiquei sabendo que um dos sujeitos listados estranhou minha presença “metido” ali: “Por que ele está nesta lista? Ele não tem nada!”. Um motorista famoso, um garçom simpático, profissionais acima da média e eu, éramos os únicos fora do PIB. Eu estava na lista por causa deste hobby de relatar o cotidiano do nosso condado e suas peculiaridades.

Quando me refiro a Jaraguá do Sul, com pseudônimos como Springfield do Sul, o faço com o maior carinho, pois tenho a impressão que moramos numa bolha, a cidade dos “The Simpsons”, onde há apenas um ônibus – aqui uma empresa só –, o prefeito que vai no passeio ciclístico, na quermesse, no jogo do Juventus e em lançamento de livro, com a diferença que o nosso não usa faixa no peito como o alcaide do seriado. Há também o bar com cerveja famosa, e várias empresas com seus respectivos Mrs. Burns tomando conta (o olho do dono…). Tem outras muitas similitudes entre a série e a nossa vida real, deixo por conta do leitor relacionar.

A sensação de segurança também me causa uma ideia de isolamento. Ali em Joinville uma pessoa é assassinada a cada três dias e aqui, mesmo respeitando todas as proporções, até eu despachar esta crônica, tínhamos UM homicídio em 2015, com arma branca num boteco, ou seja, nem projétil foi usado, um provincianismo positivo. Tudo isso graças aos investimentos da iniciativa privada, organização das entidades representativas que se reúnem com uma polícia eficiente. Só pra lembrar, estou falando de um pedacinho do Brasil.

Houve uma época em que eu ficava chateado quando dizia que vivia em Jaraguá do Sul e as pessoas nunca tinham ouvido falar. Tentava associar com o Futsal famoso, sem muito sucesso. Foi um amigo muito sábio – já falecido – o Jefferson Garcia que me alertou: “Lamas, é bom que a cidade fique escondida, quietinha aqui. Algumas novelas mostraram Floripa demais e acabaram com a cidade!”.

E cá estamos nós, no meio dos morros. Inconscientemente a nossa população protege a cidade, exceto nos finais de mês, quando a grana acaba e o pessoal fica ostentando o lazer na natureza do morro da antena ou na volta dos lagos do parque.

Assim como as ocas das aldeias estão todas de frente umas para as outras, aqui tem-se a impressão que todas as casas também estariam assim dispostas, todo mundo sabe da vida de todo mundo. Não conhecem a máxima do Quintana: Que cada um cuide do seu nariz!

Percebo muita evolução neste tempo todo que estou nestas bandas. Parabéns para todos os jaraguaenses, obrigado por tudo e desculpem algum mal entendido. Jaraguá do Sul és vibrante e é muito bom viver com a qualidade de vida que temos por aqui.

Marcelo Lamas é escritor. Há mais de vinte anos vive e registra em crônicas os fragmentos do cotidiano jaraguaense.
marcelolamas@globo.com