Por: | 9 anos atrás

Ótima reportagem publicada na FolhaSC de hoje.

tremor jaragua do sul

Foto: Eduardo Montecino.

Alguns moradores da Rua Arnaldo Piske, Bairro Três Rios do Norte, Jaraguá do Sul saíram de casa e passaram a noite em claro após escutarem fortes estouros e sentirem cerca de seis tremores de terra, ontem no início da madrugada. Tudo começou por volta da meia-noite. É o que relata o operador de máquina Eliseu Rodrigues da Cruz que estava, junto com a mulher, a diarista Eliane Persch, assistindo televisão, quando o sofá no qual estavam deitados levantou do chão. “Parece que alguém veio e deu um soco embaixo da terra”, conta Eliseu. Assustado, ele levou a mulher e a filha de cinco anos para casa de parentes no Jaraguá Esquerdo e voltou para saber o que estava acontecendo. Segundo Eliseu, dentro de casa rachou a parede e caíram alguns objetos. “Só volto quando tiver certeza de que não vai acontecer mais”. O casal Jamerson Montoski, metalúrgico, e Jaqueline Jussara Medila, secretária, fez o mesmo. “Eu e minha mulher descemos com o carro e ajudamos os outros a descer”. Segundo ele, havia vários moradores perto de um bar na Rua Arnaldo Piske.

Os tremores também foram sentidos pelo aposentado Laureano Santos da Cruz, que estava na sala de casa. “Nunca tinha visto e não quero mais ver, parecia que a serra ia cair”, conta. No alto do morro, o motorista Silvionei Koerich escutou os estouros, mas não sentiu nenhum tremor. “O primeiro parecia um trovão, minha cunhada deu um grito”, relata. “Foi muito assustador, não me sinto mais seguro como antes”. Esta frase resume o que o tremor causou na vida da família do motorista Edirlei Vitorino, que estava na sala quando sentiu a casa tremer. “Minha mulher estava no quarto cuidando do nosso filho de 20 dias e saiu correndo assustada”, lembra. Edirlei pegou a lanterna e foi para o quintal quando o segundo estouro sacudiu tudo novamente. “Teve gritaria na rua e estava tudo escuro, minhas filhas correram para fora de casa”. Com medo que os tremores continuassem, Edirlei pegou a mulher, os cinco filhos e levou para a casa da sogra. O saldo do fenômeno foi a queda de um trecho do acesso da casa. Edirlei foi um dos primeiros a chamar a Defesa Civil, Bombeiros e a Polícia Militar.

Os horários dos tremores

De acordo o operador de máquina Eliseu Rodrigues da Cruz os tremores aconteceram em espaços de tempos regulares:

• 00h00
• 00h40
• 01h21*
• 02h21
• 03h30
• 04h40
* o mais forte
Ainda foram registrados dois pequenos tremores perto do meio-dia. O presidente da Associação de Moradores do Três Rios do Norte, Dion Carlos Medeiros, estranha a regularidade no intervalo de um tremor para o outro e acredita que “alguém explodiu alguma coisa perto do bairro”.

Técnicos explicam tremor

Em entrevista à Rádio Jaraguá AM o subgerente de Fiscalização da Defesa Civil Celso Peters, o diretor de Reconstrução Ronis Bosse e o geólogo Normando Zitta explicam o tremor que aconteceu na Região do Três Rios do Norte.

Celso Peters – Era 00h20 de ontem quando recebemos uma chamada de pessoas dizendo que havia um tremor, um estrondo na rua Reinoldo Pisck, próximo à Vila Taillac, no Três Rios do Norte. Chegamos ao local e vimos cerca de 50 pessoas na rua, entre idosos e crianças. As pessoas estavam assustadas. Por volta de 1h da manhã sentimos também o tremor. Com a ajuda do Corpo de Bombeiros e Polícia Militar orientamos as pessoas a ficarem calmas. Foi feito um monitoramente no raio de 8 km e não achamos nenhum foco de deslizamento e orientamos para os moradores que qualquer movimento nos informasse. Pela manhã ainda houve mais uma ligação do mesmo local aonde novamente ocorreu mais um tremor. Ninguém se feriu e nem houve deslizamentos na região.

RJ – Qual os encaminhamentos feitos?
Bosse – Depois do diagnóstico da situação, foi feita uma vistoria e não detectamos nenhuma trinca e deslizamento de maior proporção. Nós da equipe técnica juntamente com o geólogo diagnosticamos e chegamos à conclusão que não foi um abalo sísmico e sim uma acomodação do solo em função do excesso de chuva que vem caindo nos últimos dias. É quando acontecem os barulhos e rachaduras nas casas. Caso os moradores percebam algum deslizamento de terra ou inclinação de árvores devem informar a Defesa Civil.

RJ – Os moradores podem ficar nas suas casas?
Bosse – Sim. Mas devem verificar a segurança nas suas casas. Se aparecerem trincas e rachaduras de maior proporção solicite uma vistoria. Mas no momento não será preciso interditar nenhuma casa.

RJ – O que aconteceu no local?
Normando Zita – Verificamos informalmente em nossos registros dos observatórios de Sismologia e não constatamos nenhuma anomalia referente a abalos sísmicos na Região. Pelas análises técnicas específicas conclui-se que foi uma acomodação do solo por se tratar de uma região de encostas. E com as chuvas o nível do lençol freático tem uma variação, gerando tremores.

RJ – Pode levar riscos à comunidade?
Zita – Sim, pode acontecer algo como deslizamentos de terra ou queda de blocos de rochas. As casas que estão nessas regiões que tenham rachaduras ou árvores inclinadas devem comunicar a Defesa Civil através do 199.

RJ – Já teve registros de tremores na região?
Zitta – Sim. Aconteceu em novembro de 98, no bairro Molha e Ribeirão Grande do Norte, e isso mostra que na verdade é uma acomodação do solo. A terra está em constante transformação. Esses tremores podem acontecer em qualquer lugar. Essas acomodações nos terrenos é natural. O mais importante são as casas bem colocadas e se as pessoas que identificarem rachaduras informar a Defesa Civil.