Por: Sistema Por Acaso | 5 anos atrás

Em março desse ano tomei uma decisão que foi mais impulso que raciocínio: ficar seis meses fora do Facebook. Sei que não há nada de valente e altruísta nessa empreitada, mas permanecer um tempo do lado de fora do local onde todo mundo está, serviu, talvez, para alguma coisa que arrogantemente pode ser chamada de reflexão. Ou no final das contas esse texto não faça sentido a ninguém além de mim. Por isso mesmo o compartilho.

Recentemente descobri que os semáforos da Alemanha Oriental trocavam suas luzes em uma velocidade menor aos da Alemanha Ocidental. Do lado capitalista o relógio andava em um ritmo acelerado e a obsessão por desempenho se refletia no cotidiano. Fazendo um paralelo magro e sem graça, pode-se dizer que o Facebook aumenta a produtividade com que nos relacionamos com colegas e amigos, mas essa lógica traz algo de perverso, onde o tempo que ganhamos é o mesmo que empregamos em criar uma distância entre as pessoas.
E não falo da simples alienação do jovem que passa muito tempo em frente a um computador. Acredito que redes sociais fortalecem, principalmente, conversas que acontecem no mundo real. Esta distância a que me refiro está em outro nível, onde ocorre uma total desconexão com o físico e um esquecimento de onde surgem as coisas. É como se as experiências, ainda que fortemente compartilhadas, existissem em um mundo unicamente virtual.

No tempo que fiquei de fora muito aconteceu com as pessoas que tenho adicionadas. O resumo é a vida em si: nascimentos, mortes, casamentos e separações. O que me assusta é que grande parte desses eventos fica revestido em um verniz de distância e indiferença. Oscar Wilde já escreveu que “os acontecimentos e tragédias alheias são sempre de uma banalidade desesperante”. Talvez não haja nada de tão novo. O particular é que qualquer notícia publicada em timeline parece que aconteceu há muito mais tempo do que de fato ocorreu. E, para uma geração que compartilha o presente, nada mais distante que o dia de ontem.

O tempo é relativo, disso já sabemos. Um dia no Facebook equivale a quantos dos de antigamente? Quão emocionalmente somos impactados diariamente e como essas experiências parecem não nos dizer mais nada? O cinismo cresce onde tudo parece banal. E aí está o perigo de perder aquilo que nos torna humanos, a capacidade da empatia, de olhar para o outro com compaixão e não somente com o desejo de criar o meme da semana.

Dickens já escreveu sobre o que foi o melhor e o pior dos tempos. A história se repete e exemplos dos benefícios das redes sociais não nos faltam Não escrevo imbuído de um saudosismo tolo. O que posso dizer é que ficar de fora dessa brincadeira me deixou menos ansioso. A escolha de não compartilhar nada, algo que pode ser visto como egoísta em um primeiro momento, ajudou a absorver e compreender as experiências com que fui atingido, como se uma humanidade que sentia ter perdido voltasse. Ironicamente, humano mesmo eu voltei a ser no dia que reativei minha conta, ali passei a existir novamente aos olhos de muitos, uma ressurreição à Zuckenberg. E segue a timeline, afinal o semáforo já mudou de cor.


Texto por Carlos Daniel Reichel.