Por: Ricardo Daniel Treis | 4 anos atrás

Saiu na fanpage da Secretaria da Justiça e dos Direitos Humanos do Rio Grande do Sul:

“Para esclarecimento este post é de autoria de Emmanuelle Lira, mas nós como secretaria dos direitos humanos acreditamos em cada palavra. Nós apoiamos as Mulheres, os Negros, os Jovens, grupos LGBT, Idosos, Grupos Religiosos, enfim, todas as minorias que existirem para juntos construir um mundo melhor!”

Tai gente, bem dito. Segue abaixo o texto em questão, que do meu ponto de vista, nada menos usa que lógica pura:

“Alguns esclarecimentos importantes:
1. O casamento gay é facultativo. Ninguém no Brasil é obrigado a casar com um gay. Se você não é gay, a lei não lhe diz respeito.

2. O Beijo gay é o mesmo que qualquer Beijo. Ser gay é uma característica de pessoas, não de Beijos. Não existe Beijo negro ou Beijo gordo. Ah, e também é facultativo. Ninguém é obrigado a beijar alguém do mesmo sexo.

3. A adoção de crianças por casais gays é quando um casal gay adota uma criança de um orfanato, não uma criança da sua casa. Se você não é gay e não é uma criança num orfanato, essa lei não lhe diz respeito.

4. A Globo é só uma emissora dentre muitas. Eu, por exemplo, só tenho Sky e na Paraíba a Sky não tem Globo. Ninguém no Brasil é obrigado a assistir a Novela das 9. Se assiste, é porque quer ver. Então veja.

5. Todos os programas no Brasil têm classificação indicativa. Nenhuma novela é aconselhável pra crianças de 6 ou 7 anos. Então se você estiver preocupado com seu filho ver Beijo de novela das 9, então a Globo não é o seu maior problema. Vá ler o Estatuto da criança e do adolescente.

6. Se você é cristão, saia do Levítico e do Deuteronômio e vá ler o Sermão da Montanha e aprender o que é tolerância.

Parafraseando a Pitty: nenhuma mulher vai voltar pra cozinha, nenhum negro vai voltar pra senzala e nenhum gay vai voltar pro armário. Entendam isso.”

Como a publicação foi lançada também para debate, houve respostas, e a que pareceu mais repercutida foi a de autoria de Alexandre Borges. Segue:

“Acabei de ver esse post e como ele traz ‘esclarecimentos importantes’ vamos acrescentar alguns também para a sanidade e a elevação do nível do debate. Não conheço a autora do texto, mas como o post é público não vejo problema em mostrar aqui na íntegra.

Vou seguir os pontos listados no texto original:

1. Sexo consensual entre adultos, feito em ambientes privados, não diz respeito a terceiros. O que o texto chama de ‘casamento’ não fica claro. Se ele se refere apenas a uma relação amorosa estável, também não diz respeito a terceiros. Se a relação deve ser reconhecida pelo estado, perdoe, diz respeito sim, como qualquer outro aspecto da sua vida regulado pelo estado. Se você defende políticas públicas, como o reconhecimento de um tipo específico de relação como ‘casamento’, com efeitos legais, deve estar preparado para defender democraticamente seu ponto de vista e deixar que a sociedade ouça todas as opiniões e decida.

2. Não imagino que esse ponto seja polêmico. Qualquer relação afetiva consensual entre adultos deve ser facultativa.

3. A política de adoção, seja qual for, é pública e regulada pelo estado, portanto passível de debates para a constante avaliação e evolução dos procedimentos. Qualquer adoção me diz respeito, como diz ao autor do texto ou qualquer outro membro da sociedade que se interessa pelo futuro das novas gerações.

4 e 5. O óbvio. TV aberta sempre foi e sempre será objeto de análise, tanto no Brasil quanto em qualquer país do mundo.

6. Se você é cristão, você faz parte de um pequeno grupo que reúne 90% da população brasileira e defende as tradições que construíram a sociedade ocidental, a mais livre, democrática e próspera da história da humanidade, a mesma que reconhece e protege os direitos individuais de heteros e gays. Hoje, em 2015, em muitas partes do mundo ser gay é crime passível todo tipo de violência, enquanto no Ocidente você poderá fazer Parada do Orgulho Gay num domingo em plena luz do dia, na Praia de Copacabana ou na Avenida Paulista. Se você é cristão, parabéns por construir a sociedade mais tolerante e solidária com gays em todo planeta.

O final é realmente curioso. A autora, em nome da liberdade, acha que pode dizer onde as mulheres são permitidas ou não de entrar. Se ela quiser cozinhar, por exemplo, está proibida ou será vista como traidora do movimento. Ana Maria Braga, que ficou milionária cozinhando na TV, terá que arrumar outra coisa para fazer da vida.

A escravidão é um mal da humanidade como um todo, mas foi exatamente no ocidente que ela foi entendida como uma aberração e abolida. Foram os ocidentais que impuseram o fim da escravidão para outras sociedades e muitas delas até hoje ainda resistem.

Quanto a colocar gays no armário, sugiro que o texto seja traduzido para alguma língua que o pessoal do Estado Islâmico entenda. Aqui no Ocidente os gays são muito bem vindos, muito mais do que em qualquer outra parte do mundo.

Continuando então o debate, vai agora minha opinião absorvendo o conteúdo dos dois textos: Emanuelle Lira fala em tolerância e na perspectiva do “não se incomode, isso não lhe diz respeito”. Já Alexandre ressalta o “diz respeito sim”, que considerei um aspecto muito importante, mas peca ao fazer comparações para mostrar em que quadro aceitável estamos vivendo – algo como “contentem-se, gays”. Nisso não concordo, e é ai onde entra minha posição como favorável ao movimento LGBT: a reação, manifestação e defesa das “minorias”, em nome de nossa humanidade, é necessária sim. Caso contrário, veja bem, ainda teríamos senzalas espalhadas pelo campo.

Vamos lá, nada está tão bom que não possa melhorar, certo? Injeta tolerância gente, e vambora crescer juntos.