Por: João Marcos | 16/01/2014

Laudos do incêndio químico que aconteceu em setembro do ano passado em São Francisco do Sul, mostram que galpão da Global Logística estava irregular na cidade.

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Nem faíscas provocadas por máquinas, nem problemas elétricos ou fogo ateado acidental ou criminalmente. A umidade do ar e substâncias contaminantes que não puderam ser identificadas no galpão da Global Logística foram os principais fatores do incêndio químico que assustou São Francisco do Sul, no Norte do Estado, no fim de setembro.

A conclusão é do Instituto-geral de Perícias (IGP) e está nos laudos que apontam as causas da fumaça tóxica – chamada pelos peritos do órgão de incidente químico – e os danos ambientais. A apresentação dos documentos à imprensa foi feita na tarde desta quarta-feira, em Florianópolis.

Além dos diretores do IGP, participaram três representantes do Corpo de Bombeiros Militares de Santa Catarina. Eles detalharam os horários em que cada evento ocorreu e as técnicas usadas para combater o fenômeno, considerado inédito no Brasil.

O laudo não aponta culpados diretamente, mas compromete, especialmente, a Prefeitura e a Global Logística, dona do galpão. O subcomandante-geral dos bombeiros, Gladimir Murer, e o perito em incêndios e explosões Charles Acordi demonstraram que o galpão onde estava a carga não tinha projeto preventivo contra incêndio, vistoria para habite-se, nem atestado de vistoria para funcionamento.

—Em resumo, o local estava completamente irregular—, disse Charles Acordi, perito de incêndios e explosões, do Corpo de Bombeiros do Estado.

Segundo eles, a Prefeitura não poderia ter autorizado o funcionamento do local sem os documentos. Murer explicou que houve uma transição em relação à responsabilidade de fiscalização, que era feita pelos bombeiros voluntários da cidade e passou a ser feita pelos militares em 2013.

—Nunca foi nos solicitada qualquer vistoria. O município se comprometeu a dar alvará só após as vistorias dos bombeiros. Não sabemos por que isso ocorreu—, disse.

As causas

Segundo o perito Rogério Tocantins, a reação química que ocorreu em São Francisco do Sul é uma decomposição autossustentável. Na prática, é uma reação química que se realimenta.

Um termo em inglês, cigar burning, dá a ideia de um cigarro queimando ininterruptamente, internamente. Ele descartou qualquer causa externa, como problemas elétricos, faíscas ou alguém ateando fogo.

—Não foram encontrados quaisquer elementos técnicos que sugerissem que a reação química tenha se iniciado por uma fonte externa de calor—, disse.

Com a ajuda de um desenho, ele demonstrou o lugar exato onde começou o fenômeno. Era uma área onde os funcionários não tinham acesso e a rede elétrica estava suspensa. De acordo com o perito, a corrosão nos fios foi de dentro para fora, o que prova que eles foram danificados pela reação.

Aprendizado

Segundo os bombeiros que participaram dos laudos, o episódio em São Francisco deixou várias lições, e as falhas devem ser corrigidas imediatamente. A primeira delas é uma atualização na legislação de segurança contra incêndio em SC.

Não há regras ou normas específicas quanto ao depósito de fertilizantes no Estado e cada empresa age de acordo com as informações dos fabricantes ou de suas condições econômicas.

Os laudos também devem ser encaminhados ao governo federal, para que este ajude a criar e a unificar essas normas em todo o País. A Federação dos Municípios de SC também vai ser orientada a buscar em cada cidade as situações de risco.

Segundo o subcomandante dos bombeiros, é preciso que haja um cuidado especial no transporte e no manuseio desses produtos para impedir a contaminação com outras substâncias, o que provoca reações.

Investigação

O delegado da Polícia Civil de São Francisco do Sul, Leandro Lopes de Almeida, já está com os laudos em mãos. Ele disse nesta quarta-feira, por telefone, que vai estudar e deve concluir o inquérito sobre o acidente nas próximas semanas. Por enquanto, ele não abre detalhes sobre os possíveis indiciados.

—Vou analisar com calma, concluir o inquérito e encaminhar à Justiça até o começo de fevereiro—, disse Almeida.

À Polícia Federal de Joinville, o documento foi enviado por malote. O delegado Rômulo de Castro deve ser o responsável pela investigação. A reportagem do “A Notícia” não conseguiu contato telefônico com ele.

Danos ambientais

O relatório com os danos ambientais está separado do relatório principal, com as causas do acidente. Com a ajuda de testes feitos na água, no solo e na vegetação, os técnicos, liderados pelo perito criminal Rafael Salum, demonstram os danos ambientais. Os dois cursos d’água que passam pela região da empresa foram contaminados.

—A água ficou extremamente ácida, com resíduos de nitrato e amônia—, disse.

A vegetação em volta do galpão da Global Logística também morreu. Com a ajuda de sondas, os peritos puderam avaliar até o subsolo. O laudo não aponta prejuízos financeiros nem à saúde da população. Para isso, o próprio IGP recomenda que a saúde das pessoas atendidas na época continue sendo monitorada.

Áreas de manguezal foram avaliadas, mas não foram encontrados produtos químicos.
Além dos dois, representantes dos ministérios públicos Federal e Estadual devem avaliar os documentos durante o período da investigação.

Contraponto da Prefeitura

Em nota oficial enviada à imprensa, a Prefeitura de São Francisco do Sul se posicionou brevemente sobre o laudo divulgado em Florianópolis.

—A Prefeitura de São Francisco do Sul informa desconhecer por completo o conteúdo dos laudos periciais elaborados pelo Instituto-geral de Perícias (IGP) de Santa Catarina referentes ao incêndio químico ocorrido em setembro de 2013. Somente haverá um pronunciamento acerca do assunto após termos ciência de forma oficial sobre os laudos. Até lá, aguardaremos as informações como todos os demais interessados—, diz a nota.

Contraponto da Global Logística

Os sócios-proprietários da empresa, Nelson Possamai e Claudio dos Santos, não foram encontrados para se manifestar sobre os laudos. Por meio da assessoria de imprensa, a Global Logística disse que vai se manifestar apenas depois de receber os laudos do IGP.

Via AN