Por: Cláudio Costa | 2 anos atrás

Nascido na pequena Ceres, cidade localizada no meio do Estado de Goiás, Rubens Franco foi levado ainda bebê para São Paulo, Capital. Já adulto, ele conheceu Mara Silvia e foi parar em Jaraguá do Sul. Ao alto dos seus 54 anos, Rubens é um sujeito que te conquista pelo carisma e pela fala calma. Figura importantíssima para a história do teatro jaraguaense, o ator fez do Gats (Grupo Artístico Scaravelho) a sua casa fraternal.

Na juventude, Rubens pensou em ser cantor. Mas o contato com o teatro veio meio que ao acaso. Em 1991, a convite do irmão caçula, Cidão, ele foi fazer uma oficina de teatro na casa de Cultura Tendal da Lapa, em São Paulo. “O meu irmão saiu e eu fiquei”, lembra. Após um tempo desenvolvendo trabalhos em um grupo de teatro da instituição, Franco foi ganhar a vida fora da arte. “Esse grupo se dissolveu. Eu tive que trabalhar, ganhar a vida, etc, etc, etc…”, conta.

Foto: Aparição do palhação Amarelo. Foto: Acervo Gats

Aparição do palhação Amarelo. Foto: Acervo Gats

Trabalhando no setor administrativo de uma grande empresa, Rubens conheceu a jaraguaense Mara. Esse foi o ponto de partida para começar uma nova vida em Jaraguá do Sul.

“Eu vim pra cá me aventurando e algumas coisas que eu havia planejado não deram certo. Aí, eu comecei a ingressar no Gats, ainda na época da Scar (Sociedade Cultura Artística), em 1994. No fim de semana, a gente se reunia. Eu fiz um teste e deu certo. Nessa época, o Gats fazia uma peça ou duas por ano. Às vezes, nenhuma”.

Rubens entrou “tarde” no teatro. O mundo da arte começou a fazer parte da sua vida aos 30 anos. Para ele, viver das artes cênicas foi uma consequência. “A vida da gente vai se afunilando. Às vezes, a gente é meio lento. Eu sou meio lento pra tomar as decisões e começo as coisas tardiamente. Tem uma parte no meu monólogo em que eu falo sobre isso”, pondera. “Eu tenho sangue baiano. Então, eu vou devagar, sem pressa”, completa.

O falso Sombra

Foto: Cláudio Costa

Ao contrário do que muita gente pensa, Rubens nunca foi o Sombra. Foto: Cláudio Costa

Rubens ficou conhecido na cidade como sendo um “Sombra”.  O personagem ficou conhecido nos anos 90 em programas como o Domingão do Faustão, da Rede Globo. “Essa história já caducou. Mas havia uma época em que eu apanhava se falasse que não era do Faustão. Na verdade, essa foi uma brincadeira que eu fiz com o pessoal, na época era apenas uma brincadeira. Mas o negócio foi ficando sério”, confidencia o ator.

[youtube_sc url=”https://youtu.be/u1C7D2Sn5gQ” width=”650″ autohide=”1″]

Ele explica que não sabia do personagem quando as pessoas o abordavam na rua. Rubens trabalhava no setor administrativo de uma indústria e, quando veio para Santa Catarina, decidiu montar uma barraca de sucos naturais e batidas em Balneário Barra do Sul. “Lá, as pessoas me viam e falavam do sombra. Eu vi na televisão que o Sombra era um cara que seguia as pessoas. Esse tipo de coisa eu já fazia em São Paulo há muito tempo”, garante.

Encarnando Elvis na peça Nus Caminhos do Artista. Foto: Acervo Gats

Encarnando Elvis na peça Nus Caminhos do Artista. Foto: Acervo Gats

“Quando eu era adolescente, eu e um amigo chamado Gabriel seguíamos as pessoas naquela correria de São Paulo. A pessoa nem olhava pro lado. Eu andava quase grudado, com o pé no tornozelo do cara”, descreve. Quando as pessoas começaram a abordar Rubens na rua, ele colocou o nariz de palhaço e passou a interagir com o público na frente da barraca. “Eu não só seguia as pessoas, também fazia mímicas, puxava as pessoas com aquela corda imaginária”, observa. Com os números, o negócio acabou sendo conhecido como o Quiosque do Sombra ou Bar do Sombra. “Eu começava a brincar com as pessoas e logo começava a juntar uma galera”, reforça.

“Quando o pessoal perguntava se eu era o Sombra, eu dizia que sim. Mas logo comentava que o Faustão não tinha pago o cachê que eu queria e tinha desistido de fazer o programa. Eu comecei a brincar e o negócio pegou”, relata Rubens. “Depois, eu vi uma reportagem com o Sombra verdadeiro, o Santiago, que realizava um trabalho mais ideológico. Ele tem um lance mais de mímica. Bom, tem muita gente que não me conhece como Rubens e nem como palhaço. Apenas como Sombra”, salienta. “Mesmo com outro personagem. Mesmo sendo o Papai Noel, continuo sendo o Sombra”, brinca.

Vivendo da arte

IMG_5091 (3)

Segundo Rubens, parte dos jaraguaenses precisa conhecer a cultura de verdade. Foto: Cláudio Costa

Ao todo, Rubens já encenou 15 peças. O ator explica que viver de cultura em Jaraguá do Sul não é fácil, principalmente se a expectativa é que haja glamour. “Se você quer viver bem e sempre ter o carro ano, é difícil pra caramba”, enfatiza. Segundo ele, tudo depende do conceito do que é difícil ou fácil.

“É difícil você ser feliz sempre em qualquer circunstância, mesmo tendo muito dinheiro. Uma coisa é ser difícil fazer algo, outra coisa é ser feliz fazendo aquilo. Eu não sou um cara de posses, por isso é difícil me ter como um padrão”, confessa.

“Se você tem competência, gosta realmente e quer viver daquilo. É difícil, mas não é impossível. É mais fácil pra mim porque eu gosto muito disso. Você tem amor por aquilo, mas sem esse negócio de demagogia. Você tem amor, mas tem uma hora que enche o saco. Tem uma hora que eu quero ficar em casa sem fazer nada”, destaca Rubens. “Eu não consigo me ver fazendo outra coisa. Trabalhando em uma empresa, por exemplo”, afirma.

Foto: Acervo Gats

Rubens em ação na peça “O Foto: Acervo Gats Enigma Amarelo”. Foto: Acervo Gats 

Ele afirma que só conseguiu viver apenas da arte nos anos 2000. “Quando eu vim pra cá, não trabalhei diretamente com teatro. Eu comecei no Gats em 1994, ainda na época da Scar, mas eu não vivia só disso. Eu não me sentia organizado. Eu dava aula no Jangada, você lembra muito bem porque eu dei aula pra você, trabalhei no jornal Jaraguá News, do Moa, e fiz uns trabalhos no O Correio do Povo e na rádio Jaraguá. Mas eu não conseguia conciliar e aí decidi trabalhar só com o teatro”, relembra.

O Gats
“É muito difícil você ser artista sozinho. Eu entrei em um grupo. No grupo, há outras pessoas querendo fazer, há planejamento, você faz reuniões, trabalha pra caramba”, conta Rubens, ao ressaltar que os atores realizam muitas atividades fora dos palcos. Ele conta que o espaço que o Gats ocupa, na avenida Marechal Deodoro da Fonseca, é mantido com o trabalho desenvolvido pelos integrantes dentro da arte e que eles desempenham diversas atividades para que o grupo tenha sucesso e “seja mais fácil viver com a arte”. “Quem vem aqui, não imagina como a gente trabalha”, desabafa.

Rubens comenta que é muito difícil seguir uma carreira solo e tudo fica mais fácil quando se trabalha em coletivo. “Se você tiver um grupo com pessoas engajadas, não precisa ser muita gente, até em duas pessoas dá pra se organizar. Você se organiza direitinho e traça um objetivo. Daí, você se organiza, se aperfeiçoa, vai estudar, vai correr atrás de projetos, aproveita o que tem aqui a seu favor”, comenta.

Rubens (vermelho) na peça "Tanto Trabalho Pra Nada". Foto: Franco Giovanella/Acervo Gats

Rubens (vermelho) na peça “Tanto Trabalho Pra Nada”. Foto: Franco Giovanella/Acervo Gats

O ator explica que todos os seus trabalham são agenciados grupo de teatro. “Quando uma pessoa me procura para fazer um trabalho, eu passo tudo para o Gats”, explica. Antes, Rubens trabalhava com outros parceiros e ganhava em apenas um trabalho o que recebia em semanas no grupo, mas que isso não acontecia periodicamente. Agora, a agenda do ator é organizada pela produtora Mara Kochella, ao ressaltar que até a contratação para trabalhos filantrópicos, em que não se ganha dinheiro, passam pelo grupo. “Qualquer trabalho que eu faça, eu passo para o grupo. Porque é esse grupo que nos mantém. Eu sou o grupo Gats”.

Rubens é o presidente do grupo, mas ele ressalta que essa é uma mera formalidade e que todos têm tratamento igualitário. Ele frisa que o espaço do Gats é utilizado para dar aulas e que o teatro organizado dentro da própria estrutura tem lugar para 50 pessoas. Como a Scar e o Moconevi (Movimento de Consciência Negra do Vale do Itapocu), o Gats é um ponto de cultura de Jaraguá do Sul.

O Gats tem muitos parceiros e também manda propostas para as empresas e organizações. Segundo Rubens, empresários procuram o grupo de teatro para alguns trabalhos. “Às vezes, a gente planeja alguma coisa em determinado mês, mas não consegue fazer porque a demanda é muito grande. Você não pode abrir mão do trabalho pra poder ensaiar uma peça”, salienta. “O nosso ganha pão vem desses trabalhos”, reconhece o ator, ao explicar que se considera um funcionário de uma empresa cultural. “Eu recebo o meu salário todo fim de mês, mas a diferença é que hoje eu faço o que eu gosto”.

Interpretando Ney Matogrosso na peça na peça Nus Caminhos do Artista. Foto: Acervo Gats

Interpretando Ney Matogrosso na peça na peça Nus Caminhos do Artista. Foto: Acervo Gats

Segundo Rubens, o grupo tem peças de repertório apresentadas em festivais, mas há muito trabalho corporativo. “Eu diria que hoje é o nosso carro chefe. Se a gente não tivesse isso, iria ser complicado”, define. O Gats promove diversas oficinas, uma delas foi a de capacitação de Papai Noel, em Timbó. Professores passam pelas oficinas para aprender a dar uma aula mais dinâmica. “A gente capacita essas pessoas e forma grupos de teatro. Também realiza peças em empresas”, observa. Além disso, os integrantes são contratados para representar personagens diversos, como o Coelho da Páscoa e o Papai Noel.

Também acontece a parceria com músicos e atores de outros grupos. “Eu Também sou cantor. Se precisar fazer um show, eu falo com o Enéias (Raasch) ou o Samuca (Chiodini), o Darlon e faz um show de MPB”, sintetiza Rubens. Ele conta que chama músicos experientes para realizar o trabalho porque não sabe tocar bem nenhum instrumento. “Eu só canto, mas se precisar eu toco um pouco de percussão ou uma gaitinha. Se for preciso montar uma banda, a gente corre atrás”, ilustra.

O cenário artístico da cidade

De acordo com Rubens, o atual cenário teatral de Jaraguá do Sul “está meio nublado”. “Eu vejo uma luz no fim do túnel porque tem uma galera nova começando, alunos se formando. Eu estou falando de uma forma geral porque não dá pra você separar. Acho que está havendo uma transformação. Tem muita gente perdida, pensando se vale a pena. A questão do dinheiro pesa muito”, ressalta Rubens, ao frisar que uma parte dos jaraguaenses ainda precisa se conscientizar que a vida precisa de arte e cultura.

“Num determinado momento, o pessoal vai ver a importância da arte e da cultura. Vai ver que a vida é mais que trabalhar numa empresa, ter sua casinha na praia, ter a sua aposentadoria e, depois de muito tempo, vai fazer o que gosta”, exemplifica. O ator conta que esse pensamento está se dissipando e a vinda de pessoas de outras cidades para Jaraguá do Sul está ajudando a fomentar uma nova consciência cultural.

Foto: Evelyn Hansen/Acervo Gats

Rubens se prepara para o estpetáculo. Foto: Evelyn Hansen/Acervo Gats

Rubens explica que o cenário já foi pior. “Houve um ganho e isso começou a melhorar com a própria comunidade. Em 2002, houve fóruns e depois as comissões para levantar as propostas a nível municipal, depois para o estadual e nacional”, resgata. Segundo ele, esse impulso foi dado pelos investimentos feitos pelo governo federal. “Eu nunca vi isso na história do Brasil. A comunidade ter o poder de dar a sua opinião e jogar isso a nível municipal, depois em uma comissão a nível estadual, chegar no nível federal e aí surgirem as coisas. Lógico que falta um monte de coisas, muita coisa que o pessoal sugeriu não vai sair tão cedo, não é assim tão simples. Mas nunca houve a oportunidade do povo ter voz ativa”, lembra.

Segundo o artista, houve um retrocesso político-cultural na cidade. “Houve um retrocesso muito grande de um ano pra cá”, destaca, ao explicar que há a possibilidade de que a Fundação Cultural seja submetida a outra secretaria. “Eu creio que a classe artística vai se mobilizar contra, já aconteceu em Joinville. Eu acho que é possível em Jaraguá também. O pessoal vai se mobilizar e não vai deixar a peteca cair. Nós tivemos um retrocesso e isso é um fato”, conclui o ator, ao evidenciar que os artistas temem a perda do fundo de cultura.

“Antes, não havia um fundo. Não havia alguma forma de o artista fazer um disco, gravar uma peça ou financiar um projeto de dança, não existia verba. Hoje, existem os editais e dá pra manda o projeto pra Prefeitura. Com essas mudanças, há muito o que se temer”, frisa Rubens. Ele explica que toda a estrutura da Fundação Cultural, o Conselho de Cultura e os editais para financiamento de projetos culturais só existem por causa da movimentação da classe artística na cidade. “Muitos dos alunos do Gats agora são diretores, professores e ajudando a fomentar a cultura. Tudo começou naqueles fóruns. Agora, tem um pessoal formalizando setoriais. A gente está achando que vai dar certo, que o pessoal vai se unir e lutar pelo seu espaço.”, reitera.

Rubens em peça sobre reciclagem. Foto: Acervo Gats

Rubens na peça O Patinho Feio. Foto: Acervo Gats

Com o aumento do número de locais para a encenação de peças– existem espaços para o teatro na Scar (Sociedade Cultura Artística) e no Sesc (Serviço Social do Comércio) e no próprio Gats – a efervescência cultural aumentou. Rubens toma isso como um ponto positivo, a população de Jaraguá do Sul precisa consumir a cultura produzida na cidade. Apesar de não ter tradição de longa data na área cultural, o cenário vem melhorando através dos anos. “Antes, tinha a Scar e a Scar. As pessoas precisam tirar o seu popô da cadeira ao invés de falar que Jaraguá do Sul não tem nada. Às vezes você não sabe o que fazer de tantas opções que tem. Eu já vi espetáculos maravilhosos, internacionais no Sesc com meia dúzia de pessoas. Espetáculos que você teria que pagar R$ 50, R$ 60 pra assistir esses espetáculos em São Paulo ou em Curitiba”, exclama.

O ator revela um fenômeno existente em Jaraguá do Sul. Segundo ele, acontece a desvalorização do que tem e a supervalorização do supérfluo, do comercial. “Quando um ator global (da Rede Globo) vem com um espetáculo, o teatro da Scar fica lotado. Tem que vir, tem que lotar aquele espaço, mas não só isso. Entende? Às vezes vem o global com um espetáculo super comercial, que é o retrato da novela. As pessoas pagam R$ 150 e só vão pelo status”, conta. “Vamos pesquisar mais, vamos ver o que é realmente cultura, o que é arte. Se você quer ver um noveleiro global, ótimo. Mas não deixa de ver um bonequeiro argentino que vem pra cidade, uma ópera, uma contação de históricas no Sesc ou na Scar. Vamos rever os conceitos do que é arte”, convida Rubens.

Criar o sentimento de que a cultura local é importante nas crianças é importante, segundo Rubens. Ele acredita que os costumes dos pais são repetidos pelos filhos, inclusive o consumo de cultura. “Se você não começar logo na base, o filho do cara só vai ver o comercial porque o pai só vê comercial”, acredita.

O palhaço e o protesto

Rubens acredita que o palhaço não pode ser comparado a políticos. Foto: Cláudio Costa

Rubens acredita que o palhaço não pode ser comparado a políticos. Foto: Cláudio Costa

Rubens tem um personagem chamado Amarelo, que é um palhaço. Ele explica que não se sente um palhaço completo e critica as pessoas que fazem pouco caso da arte. “A palhaçaria é algo mais sério do que as pessoas pensam. Os palhaços estão aí desde e a época dos reis e os bobos da corte. O palhaço sempre teve um poder muito mais forte dos que as pessoas pensam. Eu fico irado porque as pessoas dizem que tem que botar o nariz e ir pra rua. Não, não é bem assim”, pondera.

O ator citou o caso de um palhaço que foi preso em Cascavel, no Paraná, por criticar a Polícia Militar (veja o vídeo abaixo). “Aquele cara estava certíssimo. O palhaço é que estava lá. Não era alguém botando um narizinho de palhaço. Se você quer fazer um protesto como palhaço, seja o palhaço. Antigamente, o palhaço dizia o que ele queria para os nobres e eles riam. Ele estava fazendo uma crítica contra a corte e todo mundo ria. O palhaço criticava e eles sabiam que estavam rindo deles mesmos”, ilustra.

“Eu fico irritado quando dizem que há palhaços no poder. O palhaço diverte as pessoas. Se você chama uma pessoa de palhaço, está elevando ele ao mais alto patamar. Se o cara é um palhaço, ele está fazendo coisa boa. Se eu for fazer um protesto, vai ser o palhaço Amarelo fazendo um protesto”, opina.