Por: Sistema Por Acaso | 5 anos atrás

A turma combinou um barzinho depois do expediente. O Júnior e a Gabi chegaram primeiro. Foram juntos, eram bem amigos e sem tensão sexual declarada ou aparente. Pediram uma mesa grande e um baldinho de cerveja.

Enquanto conversavam descontraidamente, a Gabi observava um rapaz, na mesa ao lado. Ela gostou dele e teve reciprocidade. Ambos tentavam ser discretos, pois ele achava que Júnior e Gabi formavam um casal, pois ela era cinestésica e tocava o amigo a todo momento. E a Gabi também não estava a fim de apanhar, pois o outro estava com a mulher.

Era uma bela e encorpada mulher e esta percebeu o desconserto do marido e chegou a virar seu pescoço 180 graus para ver quem era o atrativo.Até o casal ir embora a situação ficou assim. A Gabi comentou:
– Meu! Aquele cara era gato.
– Olha, eu achei a mulher dele linda. Parece daquelas que passam o dia cuidando do corpo: hidroginástica, academia, pilates, drenagem linfática, yoga. Se apertá-la, sai creme.
– Kkkk…era bonitona mesmo.
Os outros amigos chegaram e a noite seguiu animada.

Passados uns dias, o telefone do Júnior tocou:
– Alô! Júnior falando.
– Boa tarde Júnior. A gente não se conhece. Consegui o teu número aí na empresa, pois tu estavas de crachá na quinta, lá no bar.
– Ah! Sim, no que posso ajudá-lo?
– Eu estava na mesa ao lado, acompanhado da minha mulher e você estava com a sua garota, certo?
Meio assustado com o inesperado, o Júnior só disse:
– Sim.
– Pois é, eu percebi que a sua companheira estava procurando uma aproximação, um contato visual comigo.
O Júnior não quis esclarecer sobre o cargo da Gabi e foi dando corda:
– Certo. E daí?
– Vocês nos pareceram um casal bem legal e nós pensamos que, talvez, pudéssemos estreitar a relação.
– Como assim?
– Bem estou ligando com o consentimento da Malu, a minha esposa. Com todo o respeito – expressão que não guarda respeito algum – eu achei a tua menina muito interessante e divertida. Ouvi várias vezes a gargalhada dela. E a Malu também achou que teria sintonia contigo.

O Júnior sempre teve dificuldades para entender parábolas. Mas neste caso não ficou enigma para ser desvendado. Assim, ele foi conduzindo o telefonema com respostas monossílabas até as despedidas com aceno para um futuro contato.

Ele ficou empolgadíssimo, pois a sua colega certamente aceitaria o rolo. E uma boa parte da população tem curiosidade nesses assuntos. Enquanto isso, do outro lado do morro, a Gabi recebia um telefonema:
– Alô!
– Oi, Gabriela?
– Sim.
– Gabriela, eu sou a Malu. A loira que estava com aquele rapaz de barba, lá no bar, que você estava na quinta. Consegui seu celular com a telefonista da empresa, pois você estava de crachá.
Ela pensou: “Ih! Fodeu. Uma ciumenta insegura na minha cola”.
– Estou ligando para dizer que você foi pouco discreta.
– Desculpe, deve ter sido um mal-entendido.
– Não se preocupe com isso, as trocas de olhares acontecem, né? Tu conhece aquela máxima do Millôr, que saiu numa crônica do Marcelo Lamas?
– Não, qual?
– “Se Deus fosse contra a paquera, não teria feito o pescoço com tal mobilidade”. Boa, né? Kkk
– Kkk. Boa mesmo.
Quando Malu, disse a frase seguinte, a Gabi entendeu do que se tratava a conversa:
– Eu também dei uma olhada no teu par, ele me pareceu bem engraçado, né?
– É, sim. Disse Gabi, curiosa pra ver onde a conversa ia chegar.
A loira seguiu:
– Hoje em dia o que importa é ter alguém divertido junto de você. Meu marido é assim. E ele ficou elogiando o teu jeito despachado e as tuas risadas Kkk. Do mesmo modo que Júnior, a Gabi seguiu a ligação com respostas lacônicas.

Os colegas de trabalho marcaram um café para conversar sobre a loucura que estava acontecendo. Para dar legitimidade a parceria, Júnior sugeriu à Gabi que ela e o barbicha se encontrassem num ambiente e que ele e a gostosona fossem para outro. Sugeriu e já arrependeu-se. Não seria nada mal ver a colega pelada e quem sabe, até poderia rolar algo mais.
A Gabi contou que as perguntas de Malu remetiam a situação financeira do suposto casal. Júnior interrompeu:
– Até pra orgia tem segregação?
– Tem sim.
Na negociação telefônica para o encontro, os moderninhos queriam a coisa misturada, mas a Gabi bateu pé, pela exclusividade.
No dia, o barbicha passou o plano para Júnior:
– Na hora e local combinados, nós estaremos na suíte 12. Vocês vão para a 14. Quando chegarem, você me liga. Aí, eu e você trocamos de quarto.
E tudo aconteceu como planejado.

No dia seguinte, o barbicha ligou para o Júnior.
– Alô!
– Júnior, queremos agradecer pela reunião de ontem. Infelizmente não poderemos repeti-la.
– Humm…
– A regra número um para estes encontros é que os dois casais sejam casais de fato!
– Humm…
– A gente percebeu que vocês não são. Eu perguntei para a Gabi como era a vida sexual de vocês. E ela me disse que tu não tinhas pegada.
– Humm…FDP…
– Porém a minha mulher disse que teve que ficar “fugindo” de ti. Que parecia que tu querias desmontá-la. Braço pra lá, perna pra cá, cabeça acolá. Segundo ela, tu és “praticamente um polvo”.
– Humm…
– E mais, tu disseste para a Malu que a tua guria era discreta entre quatro paredes. Não foi o que aconteceu quando eu tirei a roupa. Acho que deve ter dado para ouvir lá da suíte 12…Ela ficou dando gargalhadas na minha cara e fazendo gesto com relação a minha centimetragem.

Depois desta conversa, os moderninhos nunca mais ligaram.

MARCELO LAMAS, autor de “Arrumadinhas”, livro em trabalho de parto.
marcelolamas@globo.com