Por: Tita Pretti | 4 anos atrás

80

O ano era 1984. A população jaraguaense beirava os 70 mil habitantes e o comércio começava a crescer consideravelmente, em comparação ao Estado e ao país. Ainda assim, naquele tempo o varejo possuía poucos representantes de cada segmento. E o então trabalhador do IBGE, Julmir Rozza, concluía a graduação em Economia pela antiga FERJ (Fundação Educacional Regional Jaraguaense).

Movido pela vontade de empreender, o recém-formado decidiu se aventurar em uma nova experiência profissional. A esposa, Ana Maria Rozza, trabalhava na Duas Rodas, fabricante de aromas e produtos para sorvetes. E foi justamente no sorvete que o casal viu uma grande oportunidade de investir na cidade. Sem nenhuma experiência na cozinha, os Rozza decidiram apostar as fichas em um novo negócio: o Sorvetão.

Foram dois anos de preparação até abrir o primeiro negócio. Durante esse período, fizeram cursos, juntaram dinheiro e compraram o maquinário. Em dezembro de 1986, surgia a sorveteria que foi recebida como uma novidade pela população jaraguaense.

Localizado na Avenida Marechal Deodoro da Fonseca, o espaço chamava atenção não só pelos deliciosos sorvetes, mas também pela moderna decoração (com aqueles bancos de couro), que dava a cara de lanchonete “fast food”, formato até então inédito na região.

sorvetao (1)

Quem aí tem saudades de visitar o “Sorvetão”?

E todas as delícias do Sorvetão foram criadas pelas mãos do autodidata Julmir. Usando matéria-prima da Duas Rodas, ele testava as novas receitas com a família e os amigos, para depois então vender aos clientes. Alguém aí lembra da banana split? Da vaca atolada? Do sorvete de mini-chiclets? Seja qual fosse o pedido, a preocupação com a qualidade sempre foi prioridade.

“Sempre quisemos oferecer bons produtos. Os sucos, por exemplo, sempre foram naturais. Comprava as frutas ao invés de usar polpas. Os sorvetes também eram feitos com matéria-prima de primeira qualidade, sem gordura vegetal hidrogenada”, comenta.

Apesar do nome, o Sorvetão não tinha só opções para refrescar os dias mais quentes. Quando chegava o inverno, as vendas caíam em até 80%. “Foram momentos que tivemos que nos reinventar, aí criamos os lanches e passamos a elaborar as taças de sorvetes, com mais de 30 sabores. Fomos pioneiros também nas combinações de sucos elaborados com mais de uma fruta”. Com o ambiente aconchegante, o espaço acabou virando o point de encontro dos adolescentes jaraguaenses (especialmente dos alunos dos colégios da Marechal – o Divina Providência e o São Luís) e parada obrigatória das famílias nos domingos à tarde.

JARAGUA

Achem o Julmir aí na foto!

Aliás, teve muita família que passou por momentos inusitados por lá. “As crianças que usavam aparelho nos dentes tiravam, embrulhavam em guardanapos e esqueciam por lá. À noite, os pais voltavam pro Sorvetão pra ver se tínhamos achado ou não, aí eles pegavam os sacos de lixo e levavam para casa pra procurar os aparelhos”, recorda.

Foram inúmeras as vezes em que a criançada se deliciou com o sorvete de lá, inclusive de graça! O Sorvetão foi por anos parceiro da Duas Rodas nas comemorações do Dia Nacional do Sorvete, celebrado todo dia 23 de setembro. Em 2003, por exemplo, Julmir distribuiu 750 casquinhas de sorvete expresso italiano para a alegria dos pequenos. Sempre conscientizando os clientes de todas as idades que o sorvete não é um alimento apenas gostoso, mas nutritivo, já que tem leite em pó e frutas.

dia sorvete

Sente só a fila de crianças esperando ansiosas pela casquinha de sorvete expresso italiano do Sorvetão. Foto: Reprodução/ Jornal AN Jaraguá

Julmir em ação, fazendo a magia acontecer. Foto: Reprodução/Jornal AN Jaraguá

Julmir em ação, fazendo a magia acontecer. Foto: Reprodução/Jornal AN Jaraguá

Após dez anos trabalhando de sábado a domingo atrás do balcão, o ecônomo e empresário decidiu seguir novos caminhos. “Era uma rotina muito cansativa. E da mesma forma que comecei o negócio para inovar, decidi buscar novos desafios. Em 1996, o Sorvetão foi vendido para meu cunhado, Robilson Weber”, explica.

Depois de vender o imóvel, continuou produzindo seu sorvete, atendendo outros 100 pontos comerciais da região, além de ministrar cursos de saladas. E apesar da distância dos balcões, não deixou de lado o amor pela cozinha. Em 2004, formou-se em Gastronomia pela Uniasselvi e hoje atende como chef Julmir, sem perder a simpatia dos velhos tempos de quem serve alimento com amor. A volta às salas de aula aconteceu quando ele tinha 44 anos de idade, prova de que nunca é tarde para aprender mais e se reinventar.

44231_284996934939536_1355780116_n

julmir saladas

“Cozinho para os outros, para ver a satisfação na hora da refeição. Quando cozinho, coloco toda minha vontade, minha experiência, minha energia ali. Às vezes gasto horas preparando pratos que vão ser devorados em 15 minutos. Mas vale a pena. É sempre uma alegria e um prazer”, afirma.

Casa de ferreiro, espeto de pau. O massarandubense, que se considera jaraguaense, só desliza na alimentação quando o prato é o dele. “Ihhhh, eu como errado demais, só faço coisas saudáveis pros outros. Mas agora estou me cuidando, compenso a comilança com aula de judô e caminhadas”, diverte-se.

O gosto nostálgico do Sorvetão

petit

Tá afim de relembrar os deliciosos sabores do Sorvetão? Isso é possível…é só chamar o Julmir!

E pra quem tem saudades de sentir o nostálgico gostinho do Sorvetão, a boa notícia é que o chef Julmir ainda fabrica aquelas delícias geladas. Ele vende, por encomendas (via Facebook e Whatsapp), potes de sorvetes de 2 litros, nos sabores mais inimagináveis possíveis. Tem pra todos os gostos, de verdade.

“Os mais pedidos são os de iogurte com amarena e Martha Rocha. Mas já fiz de sabor gorgonzola com requeijão, sabor melão para ser acompanhado com presunto parma. O cliente é quem manda”, diz. Além dos sorvetes artesanais, ainda dá pra encomendar petit gateau. E tem mais: o chef ainda presta assessoria gastronômica para restaurantes e bares; ministra cursos de gastronomia (tem de sushi e sashimi, comida árabe, sopas e cremes, risotos e muito mais); cozinha pratos nacionais e internacionais em eventos particulares ou corporativos.

Dos tempos de Sorvetão, o chef (hoje com 55 anos de idade e muita bagagem nas costas) conservou a personalidade exigente: seus sorvetes são feitos com produtos importados, seus jantares têm ingredientes comprados fresquinhos nos mercados públicos e produtos industrializados não entram na sua cozinha. E quem agradece é o nosso paladar.