Por: Sistema Por Acaso | 2 semanas atrás

Jaraguá do Sul conta com mais de 20 mil aposentados, segundo levantamento do jornalista Pedro Henrique Leal para o O Correio do Povo. São pessoas que agora aproveitam o retorno do trabalho de uma vida toda. Porém, nem tudo são flores na aposentadoria.

O valor do benefício comparado com o custo de medicamentos e tratamentos de saúde e a dificuldade para receber o provento são alguns dos problemas enfrentados pelos jaraguaenses aposentados.

Confira abaixo, o depoimento de três aposentados de Jaraguá do Sul sobre como é viver com a aposentadoria:

Tempo livre para os estudos

O contador Marco Antônio Piva de Lima, aposentado desde 2009 por consequência uma retinopatia decorrente da diabetes, é um dos 1.716 aposentados por invalidez no município.

“Eu só tenho 50% de visão, 20% durante a noite, e fui afastado por conta disso. Fui reprovado em todos os exames feitos para verificar se teria condições de voltar a trabalhar. Estou legalmente impedido de trabalhar e sem o benefício, de cerca de R$ 3.100, não conseguiria me sustentar.

Quando eu me aposentei, em 2009, a aposentadoria dava cerca de cinco salários mínimos, mas com os ajustes ela não foi acompanhando, hoje são três. Parte dos meus gastos com medicamentos são cobertos pelo SUS, mas ainda assim só nos remédios há uma despesa de cerca de R$ 200 por mês.

Meus rendimentos poderiam ter sido maiores: no auge da carreira, cheguei a contribuir com o teto da previdência. A minha aposentadoria não é a única fonte de renda familiar, mas é uma grande ajuda. A aposentadoria é como um salário social, um salário a mais, uma certa segurança extra.

Minha condição financeira é melhor do que grande parte da população, por conta até do tipo de serviço que eu realizava. Eu sou até novo para estar parado, se estivesse em condições ainda estava trabalhando, mas tem gente que com a minha idade não tem condições para fazer o trabalho que faz.

Operários de fábrica, por exemplo, estão sujeitos a riscos de saúde muito maiores do que quem trabalha em escritório. O pobre recebe muito pouco, e acaba tendo que trabalhar para se sustentar mesmo com a aposentadoria.

Sem poder trabalhar, dedico meu tempo livre aos estudos. Antes da aposentadoria, me formei em direito, mas não cheguei a exercer.  Eu só não estou trabalhando, fora isso me mantenho com a mente ativa, fiz pós graduação, estou estudando, me mantendo ocupado”.

Dedicação ao voluntariado

Aposentada pelo Estado, a professora Iris Frohner, de 74 anos, chegou a receber 10 salários mínimos, quando se aposentou em 1989.

O total hoje é de cerca de 5,5 mínimos. Não nego que é uma aposentadoria com um grau de fartura, complementada pelos custos reduzidos com a saúde. Dá ainda para sobreviver. Isso, claro, porque não tenho gastos com remédios.

Como sou aposentada pelo estado, nunca investi em planos de previdência privada e, mesmo sentindo a perda de renda potencial nessa falta de investimento, não lamento.

Moro com a minha afilhada e uma amiga. Uso meu tempo livre para ajudar as pessoas. Atuo com caridade e ajudo os  parentes.

O único filho que eu tive faleceu em um acidente de moto em outubro de 2015. A gente não sabe de nada, só Deus é que sabe quando a gente vai.”

Benefício conquistado a duras penas

O ex-motorista de ônibus Sebastião Neckel, de 67 anos, é deficiente físico aposentado por motivos de saúde. Ele teve que entrar na justiça para conseguir o benefício.

Eu não tinha como continuar no trabalho, mas ainda assim queriam que eu trabalhasse e tive que entrar na justiça para provar que não podia. Me aposentei em 2003, depois de ficar duas vezes sem conseguir andar por conta de lesões na coluna.

Na época, o INSS me julgou apto para voltar ao trabalho, só que em outra função. Para mim, essa decisão já havia sido tomada antes mesmo de eu chegar para a perícia, em Joinville.

Queriam me transferir para outra função depois que eu fiquei sem condições para dirigir, na hora de fazer a perícia estavam com o laudo pronto para me dar alta e me declarar apto.

O meu processo passou da esfera local para a federal, e depois de vários tramites, consegui o benefício: cerca de R$ 960. O valor na época era muito pouco, não fossem algumas mudanças na legislação e procurar a justiça, eu não tinha o que tenho agora, que ainda faz falta.

Hoje, recebo cerca de R$ 3.600 e grande parte é usada para cuidar dos meus problemas de saúde.”

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Fotos: Eduardo Montecino