Por: Ricardo Daniel Treis | 3 anos atrás

Matéria por Bianca Villanova, Diário Catarinense.
Fotos: Maykon Lammerhirt

Dona Ilse Rahn em frente à casa da família em estilo enxaimel no bairro Rio da Luz Foto: Maykon Lammerhirt / Agencia RBS

Dona Ilse Rahn em frente à casa da família em estilo enxaimel no bairro Rio da Luz

Há 34 anos, Darci e Ivanilda Reinke saíram da casa em Schroeder e compraram um imóvel em um terreno bucólico em meio aos pastos do bairro Rio da Luz, em Jaraguá do Sul.

A casa grande e antiga eleva-se em relação às moradias vizinhas e chama atenção pela arquitetura. O imóvel é de 1921 e hoje está vazio, com o telhado torto pela ação do tempo. A casa faz parte da área considerada patrimônio histórico nacional, que abarca todo o bairro e se estende até a região do Testo Alto, em Pomerode.

O conjunto rural foi tombado em dezembro de 2007 e integra os Roteiros Nacionais de Imigração. Sete anos depois, porém, moradores relatam mais incômodos do que benefícios com a medida.

_ Paramos no tempo _ lamenta Darci, resumindo um sentimento compartilhado por muitos moradores.

Muitos imóveis antigos estão com problemas estruturais. Há telhados caídos, paredes em mau estado de conservação e goteiras.

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Um dos maiores problemas são os cupins, que consomem a madeira que forma a base de muitas casas. Alterando a paisagem, muitos moradores construíram novas casas ao lado dos patrimônios antigos e é comum encontrar essa dupla nos terrenos: imóveis centenários ladeados por casas modernas. A alternativa é vista como a única saída, já que muitos não percebem opções de restauro por causa do alto custo dessas obras.

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Muitos moradores sentem que estão presos em um emaranhado de normas. Há a impressão de que não há nada que possa ser feito no bairro sem a autorização do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) _ o que, em muitos casos, é verdade. Pouco mais de cinco anos após o tombamento, uma portaria foi publicada, tornando claras as novas normas do bairro. Ali está elencado tudo o que pode e que não pode ser realizado.

Reformas, por exemplo, precisam de autorização do instituto. Novas casas devem seguir padrões de construção predeterminados.

Há normas distintas para diferentes trechos do bairro, porém, toda e qualquer intervenção deve ser avaliada previamente. Inclusive as mudanças na paisagem, já que não são apenas os imóveis que são tombados, mas todo o conjunto formado por casas, relevo e vegetação.

Apesar de compreender as dificuldades encontradas por moradores, Maria Regina Weissheimer, arquiteta e urbanista do Iphan de Santa Catarina, defende a importância do tombamento.

_ Quando se trata de preservação do patrimônio, o interesse público se sobrepõe ao interesse individual ou privado. Pode parecer difícil e, de fato, é uma questão complexa, mas o que está em jogo, no caso de Rio da Luz, é um interesse nacional por esse pequeno recorte territorial que guarda uma das mais preciosas heranças do processo de imigração no século 19 no Brasil _ ressalta.

Ilse Rahn reformou a casa em enxaimel há 12 anos, antes do tombamento. A casa ainda serve de moradia para ela e o filho, que criou ao lado do imóvel o Pesque e Pague Alcir. Nos fins de semana, são servidas porções e a propriedade passou a ser rentável com o novo negócio.

Casa Rux, de 1915, está em reforma
Construção de 1915, a Casa Rux está sem moradores desde 2007. A família construiu uma casa nova ao lado da antiga por causa dos problemas estruturais da casa em enxaimel. Após diversos pedidos dos Rux, o imóvel finalmente passa por reforma. A obra começou no fim do ano passado, ficou parada por dois meses por falta de uma licença, e agora funcionários retornaram ao trabalho.

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Toda a estrutura será restaurada: as madeiras serão trocadas, paredes e telhas, renovadas. O projeto é executado e custeado pelo Iphan, que investe R$ 300 mil na obra. A previsão de entrega é para outubro. Segundo Maria Regina Weissheimer, a reforma foi aprovada porque um dos proprietários demonstrou interesse em abri-la para visitação.

A família, de fato, pensa em abrir o imóvel para visitação. Até 2007, mesmo quando o espaço era utilizado como moradia, suas portas eram abertas à comunidade. Com os problemas na estrutura, ela foi fechada, mas Evandro Rux, filho dos atuais proprietários Edvino e Cristiana Rux, pensa não apenas em morar ali, mas em transformar a casa em um ponto turístico. Para isso, porém, ele conta com ajudas necessárias:

_ Primeiro, temos que ter turistas, para começar a funcionar. Hoje não vale a pena sair do trabalho na fábrica para ficar aqui e receber só um turista por semana. O tombamento será bom para o bairro a longo prazo, mas até agora não mudou nada _ afirma Evandro


Matéria por Bianca Villanova, Diário Catarinense.
Fotos: Maykon Lammerhirt