Por: Anderson Kreutzfeldt | 4 anos atrás

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Eu não sei se acontece só comigo, mas de vez em quando acabo me sentindo como se tivesse perdido o ímpeto da coragem e me entregado a covardia. Quando digo “eu”, falo na verdade sobre todos nós. E eu me pergunto por que deixamos de lutar… Por que paramos de vestir o verde, o amarelo e o azul… As cores da pátria tingidas de vermelho. O nosso sangue, com o qual estávamos dispostos a lavar as ruas. Ou ficar a pátria livre ou morrer por ela, não é mesmo?

É claro, ainda há a resistência. Ainda tem gente na rua lutando por um mundo melhor… Mas estão ofuscados por conceitos distorcidos e pela falta de união do povo. Aparentemente, menos de um ano depois de nos espalharmos pelos quatro cantos do país a revolução saiu de moda.

Quero dizer… O que realmente mudou? A guerra acabou por derrubar a PEC 37 e a corrupção (que continua rolando solta e tingida pela impunidade) se tornou um crime hediondo. Crime hediondo cometemos nós ao achar que isso seria o suficiente.

Aos poucos que continuam na rua, entrego minha admiração… Ainda há muito pelo que se deve lutar. O gigante estava desperto, mas resolveu sair do campo de batalha para tirar uma sonequinha. Espero solenemente que ele não entre em coma, como havia estado por décadas.

Os manifestantes acabaram sendo marginalizados aos olhos famintos da sociedade que procura alguém para culpar pelo seu eminente colapso. Julgam com os olhos e com as bocas, das quais saem palavras secas e sem sentimento. Não me entenda mal… Eu não acho que a sociedade deveria acabar. Pelo contrário: ela precisa ser consertada.

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Algo muito errado – e ninguém consegue explicar exatamente o quê – aconteceu e nos perdemos pelo caminho. A revolução se tornou ruído e mantendo os olhos abertos talvez seja a sua vez de julgar: o que realmente fomos capazes de mudar? Agora pense em tudo o que podemos fazer. As possibilidades são infinitas.

Diariamente sou perseguido pelo sorrateiro fantasma da revolução fracassada. Espero que não seja o único. A Copa do Mundo vem aí, erguendo seus impérios de deboche de um povo que vive assolado na miséria. Vejo aqueles que tanto a criticaram falando sobre ir assistir o espetáculo de perto, falando em gastar uma grana que ninguém tem para ir aos estádios. Muitos irão! Entregarão suas notas sujas, vestirão seus narizes de palhaço e aplaudirão de pé a própria miséria, enquanto enchem os bolsos de todos aqueles que foram “espertos” o bastante para apostarem na ignorância do povo.

Não me entenda mal. Eu gosto de futebol e acho uma excelente distração. Provavelmente também assistirei aos jogos da Copa, não há como fugir disso. Mas pensar nesse culto a amarelinha me enche de náuseas. Não duvido que o Brasil leve a taça, e, se levar, podem se preparar: o gigante passará mais algumas décadas adormecido, com migalhas no seu colo, mamando nas tetas secas da ideia de que nos tornaremos um país exemplar sem que qualquer iniciativa seja tomada.

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De todas as maldições que foram lançadas aos brasileiros, a ignorância é a pior delas. Bebemos dela, todos os dias, de tanto que é esbanjada.

Minha revolução é calada, de cabeça baixa. O coração continua palpitando certezas bravamente. Espero que ele não esteja sozinho. Espero que muitos corações por aí estejam dançando no mesmo compasso.

Não deveríamos vestir a amarelinha. Deveríamos vestir o preto, afinal, estamos de luto, não é mesmo? Somos todos órfãos de uma revolução adormecida. E amanhã ou depois de amanhã, talvez descubramos uma cor nova, que represente a violenta opressão que sofremos em silêncio.

E lá na frente há uma luz, mostrando o caminho de volta. Basta que sejamos bravos o suficiente para olhar diretamente para ela. Não ficaremos cegos. Estaremos cegos enquanto não olharmos para ela.