Por: Sistema Por Acaso | 6 anos atrás

Já dizia um amigo, filósofo de bar: “Toda profissão tem seu drama”. Geralmente os pedidos de consultoria acontecem em todos os setores, como alguém que chega pro veterinário e diz: “Podes dar uma ‘olhadinha’ no meu cachorro?”. Esses pedidos começam com um prenúncio, seguido de um predicado elogioso: “Tu que és um escritor moderno, sabes se ‘paraquedas’ tem hífen?”.
Certa vez recebi um telefonema de uma desconhecida:
– Oi tudo bem? Sou amiga da fulana, ela te indicou pra me ajudar. Tu que és professor, podes me ajudar a resolver um problema?
– Opa, se eu puder te ajudar.
– Eu mandei uma sandália pro conserto e fiquei sem grana pra buscar. Quando arrumei o dinheiro, já haviam se passado três meses e eles venderam pelo preço do serviço para outra pessoa. É correto isso?
Depois de sugerir que ela procurasse o Procom pra se aconselhar, a conversa seguiu e ela perguntou: “De que mesmo que tu és professor?”. Futuramente ela cursou e formou-se naquela faculdade.
Outro dia, passando pela mesa de uma novata, no meu outro trabalho, a guria me chamou:
– Me disseram que tu também és professor. É verdade ou é pegadinha?
– Ah, sim, é verdade.
– Podes me explicar como funciona esse negócio de série A e rebaixamento?
Bem, a jovem estava mergulhada num ambiente excessivamente masculino e estava tentando entender o assunto das horas vagas. Tentei ajudar:
– São quatro séries. Os últimos da série A são rebaixados para a B e assim por diante. Os primeiros vão pra Libertadores.
Eu precisei de um papel, pois não consigo explicar nada sem escrever. Uma limitação minha, não da menina. Ela seguiu:
– Quem faz mais gols, faz mais pontos? O que é “pontos corridos”?
Expliquei que a vitória vale três e o empate um. Que todos jogam contra todos, duas vezes.
Naquela altura, a menina já estava com o jornal aberto na tabela de classificação.
Foi aí que eu perguntei:
– Pra qual time você torce?
– Como eu faço pra escolher?
Surpreso, respondi:
– Torça para o Grêmio.
– Ah! É? Qual é o critério pra escolha?
Fiquei sem resposta, falei que depois eu lhe explicava e voltei a trabalhar, afinal era para aquele fim que eu estava lá.


Marcelo Lamas, autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com