Por: Cláudio Costa | 3 anos atrás

Imagine que a terra onde você nasceu está totalmente destruída. Essa devastação foi causada por um evento catastrófico e deixou os seus conterrâneos sem hospitais, distribuição de água potável, energia elétrica, medicamentos, alimentos, entre outros tantos serviços básicos. Você está estudando em outro país, mas tem que voltar e enfrentar o caos. Afinal, entes queridos precisam muito da sua ajuda. Depois, sem esperanças, você é obrigado a enfrentar uma jornada perigosa para encontrar um novo lar fora de sua terra natal.

Foto: @GorkaLejarcegi

Terremoto de 7 pontos na escala Richter devastou o país, deixando uma nação sem teto e sem recursos. Foto: @GorkaLejarcegi

Essa é apenas uma pequena parte da história de François Louis, 37 anos, um dos muitos haitianos que vivem no Brasil. Em 2013, com a ajuda duvidosa de coiotes, ele e a esposa, Pelina Jean, 31 anos, atravessaram a República Dominicana, a Colômbia, o Equador, o Peru e entraram no Brasil pelo Acre. De Rondônia, o casal partiu para São Miguel do Oeste, em Santa Catarina. Há sete meses, eles moram em Jaraguá do Sul, dividindo os fundos de uma casa no bairro Rau com outras quatro pessoas.

Porém, o casal deixou muito mais do que uma história triste no Haiti. Além da sua nação destruída, ficaram dois filhos para trás. Afinal, como ter certeza de que a pequena Linscy Mathe Elguine Louis, agora com  3 anos, e o garoto Ednerns Wolff Erwins Louis, atualmente com 6 anos, teriam um futuro seguro no novo lar? Eles ficaram aos cuidados de parentes, mas como ficar tranquilo tão longe de suas crianças? Uma jaraguaense soube da história e teve a ideia de trazer esperança para um homem que perdeu muito mais que bens materiais na vida.

Foto: Cláudio Costa

Professora Mara Isa Raulino. Foto: Cláudio Costa

As histórias de Mara Isa Raulino, professora de sociologia na Católica de Santa Catarina, e François se cruzaram por acaso. Em um dos encontros do projeto Pensamento em Movimento, no dia 19 de setembro, foram discutidas as políticas de acolhimento aos haitianos. Neste dia, trazido por duas professoras da rede pública, François contou um pouco do seu infortúnio. Comovida, Mara não perdeu tempo. “Sempre fazemos avaliações após os encontros e nem esperei aquele terminar pra começar a ler. Os meus alunos escreveram que queriam fazer alguma coisa por ele. Fiquei com aquilo na cabeça por dias. Tenho uma filha pequena e me compadeci com aquela situação”, conta Mara.

A partir daí o espírito solidário de Mara Isa passou a falar mais alto. “Nunca havia feito uma ação desse tipo. Perguntei pra ele se poderia ajudar. Naquela semana, em quatro dias, juntamos alimentos, fraldas entre amigos e alunos”, relata. “Estudei a questão da vaquinha online, deixei a ideia ganhar corpo para ter condições de dizer a ele que daria tudo certo”, conclui Mara, ao comentar que não gostaria de decepcionar o casal de haitianos com uma falsa promessa.

Ao todo, a ação promovida através do site Vakinha pretende arrecadar R$ 11 mil. “Estudei o contrato e precisamos arrecadar um pouco mais do necessário por causa das taxas do site”, explica. Até o fechamento deste artigo, foram arrecadados R$ 4.410 e haviam outros R$ 1.875 aguardando confirmação. A arrecadação da quantia encerra no dia 25 de novembro, ou seja, ainda há muito tempo para atingir a meta. “Eu não sei explicar, é uma missão. Ele é um cara verdadeiro e é difícil levar esperança para as pessoas”, constata Mara Isa.

Foto: Reprodução

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“Esse é um esforço conjunto e muita gente quer ajudar, só precisam de um ponto de partida”, desabafa a professora universitária. Mara Isa comenta que não procurou empresas para arrecadar fundos para a ação. “Os alunos precisam viver essa realidade. Foram semanas organizando e há uma grande expectativa de que tudo dê certo”, destaca.

A esperança de uma vida melhor
Em 2010, François Louis cursava o quarto ano de engenharia agroflorestal, na República Dominicana, país vizinho ao Haiti. Após o terremoto, teve que retornar para o seu país de origem. “Muitos amigos meus perderam a vida”, lamenta. Sem perspectivas de viver no país devastado, ele resolveu migrar para o Brasil. “Nós escapamos para ter uma vida melhor. Chegamos aqui como clandestinos, mas agora temos carteira de trabalho”, conta.

No Brasil, as coisas não são fáceis para quem chega de fora, principalmente do Haiti. “Muitas pessoas nos ajudam, mas a maioria não tem essa iniciativa”, pondera. “Nós buscamos alternativas para chegar aos nossos objetivos. Isso é difícil, nós temos que lutar muito”, completa. François trabalha em uma metalúrgica da cidade e mensalmente manda US$ 100 para os familiares no Haiti. Atualmente, ele frequenta o curso técnico em mecânica no IFSC (Instituto Federal de Santa Catarina).

Segundo Mara Isa, caso tudo ocorra conforme planejado, François deve retornar para o Haiti em dezembro. Lá, deve fazer os passaportes dos filhos na capital Porto Príncipe. “Os filhos dele moram no interior e toda a documentação tem que ser feita na capital. É tudo muito difícil e deve levar tempo. Esperamos que ele consiga fazer tudo dentro de um mês”, frisa a professora. “Ele também vai tentar reunir os documentos da faculdade repúblico-dominicana para validar as matérias no IFC (Instituto Federal Catarinense), em Araquari”.

Você pode ajudar a ação da professora Mara Isa clicando aqui.