Por: Sistema Por Acaso | 20/02/2015

Crônica por Marcelo Lamas

Dois comparsas e eu conversávamos sobre nossa amiga solteira convicta. O padrão social seria: casada, com dois filhos e com mais de dez anos na mesma empresa. Ocorre que a guria é avulsa e pronto. Não sente necessidade de ter cara-metade, com perdão pelo clichê. Sendo a neta mais velha de uma ‘oma’ tradicional de Schroeder, foi intimada pela matriarca viúva: “Tu não gostas de homem?”.

Há bem pouco tempo, uma pergunta deste naipe seria impraticável por uma vovozinha de 80 anos para uma neta de 32. Fosse esse o motivo e uma real desconfiança da avó, seguramente a velhinha preferiria ‘nem saber de um negócio desses’. Na minha família, há algumas décadas, quando a namorada de uma prima chegou num evento com ela, o avô da prima resmungou: “que esculhambação”. Também na minha família, um primo assumiu sua homossexualidade lá na década de 1970, andava travestido e abriu um salão de beleza. Como disse o Analista de Bagé, personagem do LF Verissimo: “Pra fazer isso no interior do RS tem que ser muito ‘macho’”. A explicação correta seria: ter muita convicção e coragem.

Também no RS, uma avó conhecida chamou sua neta para tirar satisfações, pois o pretendente era um degrau acima na cútis, equivalente a um dia a mais de sol, mas a chefe da família foi incisiva: “Com tantos rapazes em Santa Maria?”.

Que bom que os tempos mudaram e a mídia trata de atualizar todo mundo e a ‘oma’ Jarschel está ligada, embora não seja o caso da sua neta seletiva. Imagine o dia que essa guria resolver levar um namoradinho para apresentar para a avó? Depois de uns bons anos sem aparecer com um canditado lá e já passada da idade pelos critérios da octagenária, o cara vai precisar de muita personalidade para não ficar assustado pela ‘medição’ que ela vai fazer logo na primeira olhada de cima para baixo, um raio X.

Histórias pitorescas de idosos ‘zelosos’ pelas suas famílias não faltam. A minha própria avó Alice, que tinha uma cabeça muito aberta, não permitiu que meu tio namorasse uma menina negra. Isso rendia muitas discussões na hora do almoço lá em casa entre ela e eu. Hoje seria intolerável uma postura assim dela, independente da hierarquia.

Já o meu amigo de origem germânica quando levou a namorada de cabelo preto para a ‘oma’ conhecer, foi bem recebido com a frau. No dia seguinte foi convocado para uma reunião em particular e respondeu o interrogatório: “De que família é aquela moça? Ela é ‘cabocla’? Fazer o que se a gente tem que aceitar isso?”. E esta história é bem recente, hein!

É interessante ver alguma evolução dos costumes e a liberdade individual respeitada. Mas isso tem que ser um trabalho diário de eliminação do preconceito. Todos nós dizemos não ser preconceituosos, mas será que realmente não somos? Fica fácil notar falhas no comportamento alheio e atravessar para o outro lado da rua quando vir alguém mal vestido ou achar estranho quem vive sozinho, por opção de vida. Como alertou Frederico II, Rei da Prússia: “Expulsai os preconceitos pela porta e eles tornarão a entrar pela janela”.

O escritor Marcelo Lamas é autor de “Indesmentíveis”, “Arrumadinhas” e de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.