Por: Sistema Por Acaso | 5 anos atrás

Reta final para as eleições, e os discursos dos candidatos invariavelmente prometem resolver os problemas fundamentais de saúde, segurança, mobilidade e cultura do nosso querido município que já tem alto índice de qualidade de vida. Se forem eleitos, vão transformar o lugar no verdadeiro paraíso aqui na Terra. Até aí, tudo bem. O que todos querem mesmo é viver numa cidade paraíso, justa e segura. O problema é que no mundo real não é bem assim. Quem mora na Rua Felipe Schmidt (aquela ao lado da loja de ferragens que tem de tudo) sabe bem o que é desembarcar do terminal urbano e enfrentar o trajeto até chegar a casa. É preciso superpoderes. Primeiro, é precisa ultrapassar o vendedor de crack que se posiciona logo na esquina com a Getúlio Vargas como um anfitrião oferecendo produtos e dizendo coisas poucas agradáveis a quem passa.

Alguns passos adiante é preciso vencer a barreira dos usuários que orbitam o universo do traficante pedindo cinco reais a quem caminha pela rua. Neste ponto, a recomendação é abraçar bem a bolsa e fazer cara de poucos amigos, além de acelerar o ritmo das passadas. Ainda mais à frente, o obstáculo são as moças fazendo programa na esquina posterior da casa de ferragens. São magras, obviamente agitadas, de rosto marcado, ligadas ao rapaz que vende crack, aquele a quem me referi no começo do texto. As tais moças não trabalham para nenhum dos dois estabelecimentos de prostituição que estão logo a seguir. Um deles já tradicional na cidade, pintado em tons de azul, ocupando um grande terreno de esquina e que promove diariamente festas com música alta, churrasco e intensa movimentação em pleno final de tarde. E basta atravessar a rua para encontrar mais moças trabalhando no bar amarelo que fica bem em frente a tal casa azul da esquina. E, claro, os estabelecimentos trazem à cena carros e motos estacionados, homens encostados ao muro disparando gracinhas a qualquer um que passa, etc.

Acabou? Ainda não. Para chegar em casa ainda é preciso passar em frente ao terreno baldio que serve de área de lazer para os usuários de drogas e para as moças da esquina (aquelas que são amigas do rapaz que nos recebe à entrada da rua) fazerem um serviço rápido. E ai de você se olhar mais demoradamente para algum deles ou se atrever a fazer qualquer expressão de desagrado! Depois de atravessar todos os obstáculos, você finalmente pode chegar em casa, trancar bem as portas e aproveitar as delícias do lar. Mas é melhor tomar cuidado se precisar sair mais tarde, ou mesmo na manhã seguinte. Certifique-se de que não há ninguém encostado no portão dormindo por ali mesmo, ou tirando um cochilo no aconchego do saguão de entrada do prédio. É melhor não acordar o mortal que ali repõe as energias, não é?

Parece irônico, mas o quadro é exatamente este, diariamente. Os moradores estão constrangidos e preferem dar a volta pela Epitácio Pessoa a passar por esse circo que se arma todos os dias na rua Felipe Schmidt. As autoridades não sabem disso? A força policial desconhece o problema? Duvido. Aqui na cidade perfeita há uma rua que está sendo tomada, em que os moradores são constrangidos e ninguém faz nada. Não sou contra o direito de cada um fazer com sua vida e seu tempo o que bem entender. Não é problema meu. O que estou pedindo somente é que o direito de alguns não seja o inferno de outros. Gostaria de poder chegar em casa tranquila, não ficar apreensiva enquanto meu filho não vem da escola e não ver a degradação lenta e anunciada tomar conta de uma rua inteira.

Nesta semana de eleições, portanto, já decidi: voto em quem prometer fazer algo pela rua Felipe Schmidt, antes residencial, agora… quem sabe?

Denise Ravizzoni