Por: Ariston Sal Junior | 4 anos atrás

Xuxa torce por filha em competição

Toda vez que apresentadora Xuxa Meneghel defende alguma questão polêmica, entre os que discordam de seu ponto de vista há sempre algum para utilizar Amor, Estranho Amor, o suposto filme “pornográfico” que a Rainha dos Baixinhos teria feito no início de sua carreira, para desclassificar sua opinião. Esta semana, ao defender a proibição do castigo físico e humilhante contra crianças, Xuxa foi hostilizada na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara pelo deputado Pastor Eurico (PSB), tendo como base justamente este detalhe “sombrio” em sua filmografia.

Quem usa esse tipo de argumento para desqualificar a apresentadora incorre em pelo menos dois erros: a desinformação e o machismo. O polêmico filme de 1982, dirigido por Walter Hugo Khouri (facilmente encontrado ilegalmente na internet), não é nem nunca foi pornográfico.

Estrelado por Tarcísio Meira e Vera Fischer, dois medalhões das telenovelas, a fita sequer é uma pornochanchada, gênero apimentado popular nos anos 1970. O filme é um drama político sobre um rapaz que rememora sua infância vivida num bordel, tendo como pano de fundo a implantação do Estado Novo no Brasil. Dentre as várias memórias está a sua iniciação sexual com uma das jovens do local, interpretada por Xuxa.

As polêmicas cenas de sexo são, na verdade, algumas sequências onde Xuxa aparece seminua ao lado do garoto e, na mais explícita delas, deita em sua cama, passa a mão sobre seu peito e lhe dá um beijo. Vale lembrar que quando o filme foi rodado, por volta de 1980, Xuxa tinha 16 anos, e o garoto, o ator Marcelo Ribeiro, 11. Ambos menores de idade. Se Marcelo – que já havia feito dois anos antes Eros, o Deus do Amor (1980), outro filme de temática sexual – é uma vitima do cinema irresponsável, a jovem Xuxa também é.

O filme passa tão longe da pornografia (e principalmente da pedofilia) que foi selecionado para o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, a mais tradicional mostra da sétima arte no país. Vera Fischer recebeu o Candango de Melhor Atriz Coadjuvante por sua atuação no longa que, quando lançado, não deu atenção alguma para Xuxa. Seu nome só foi para o topo do cartaz, e sua imagem passou a aparecer em destaque, quando a loira começou a namorar Pelé, alguns anos depois.

Àquela altura o Brasil ainda vivia sob a ditadura militar, onde filmes considerados demasiadamente eróticos eram barrados. Último Tango em Paris, de Bernado Bertolucci, estrelado por Marlon Brando e Maria Schneider, ficou sete anos proibido no país por causa de sua famosa cena de sexo. Os tempos eram outros. Não existia o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e aos 16 anos garotas já eram mães de família, enquanto não era incomum que pais levassem seus filhos para perderem a virgindade em bordéis. A noção de amadurecimento e sexualidade era diferente.

Na história do cinema, grandes atrizes interpretaram cenas de descoberta da sexualidade, como as de Amor, Estranho Amor. O premiado Malèna (2000), de Giuseppe Tornatore, segue um caminho semelhante, mas ninguém questiona a integridade de Mônica Bellucci, mesmo após ela ter seu corpo nu acariciado pelo jovem Renato, interpretado por Giuseppe Sulfaro, então com 14 anos.

Essa polêmica toda em torno de Xuxa seria machismo? Há quem diga que não, mas é no mínimo curioso como o linchamento moral que ela sofre, especialmente entre alguns grupos religiosos, não se aplica ao protagonista do filme, Tarcísio Meira, o galã da família brasileira. Mauro Mendonça e Otávio Augusto também estão no longa e, até onde me consta, nunca foram classificados como “desrespeito às famílias do Brasil”, como fez o parlamentar-pastor em relação a Rainha dos Baixinhos. Walter Hugo Khouri seguiu sua premiada carreia de diretor e roteirista, sem nunca ser recriminado publicante pelo filme.

Xuxa errou em relação a Amor…, não em fazê-lo, mas por barrar a sua distribuição. Há mais de 30 anos a apresentadora paga os direitos de exibição e distribuição do filme temendo que a polêmica possa atrapalhar sua carreira com o público infantil. Censurando seu próprio passado, ajudou a criar um fantasma e, a mentira sobre o tal “filme pornô” já se tornou verdade, até mesmo para nossos competentes parlamentares brasileiros.

Por Max Melo
Via Brasil Post