Por: Anderson Kreutzfeldt | 4 anos atrás

Numa conversa de boteco, entre mulheres e homens chegou-se ao tema meretrício. Percebi que elas tinham muita curiosidade e não se furtaram de fazer várias perguntas. Achei por bem me aprofundar. Logicamente, com conhecimento prévio e muitas linhas já escritas. Coloquei minha credencial de escritor no bolso e fui a campo. Precisava de informações atualizadas: será que as “acompanhantes” também não largam seus smartphones?

Embora tivesse vários amigos que possivelmente teriam interesse em me acompanhar, decidi ir sozinho. Quando cheguei ao estacionamento discretíssimo, pensei: “Dificilmente um homem vem sem comparsas num lugar desses”. Resolvi ligar pro Paulo, um caboclo de confiança:

– Paulo?
– Fala amigo Marcelo, tudo bem contigo?
– Sim. Cara, to aqui na zona!
– Opa! Ta ligando pra me convidar? Por que não me chamou antes?
– Não amigo, vim aqui pra coletar material pra escrever.
O Paulo, que também é autor, entendeu:
– Ah! Entendi Marcelo. Mas me ligasse pra quê?
– Bem, caso eu suma, começa procurando por aqui, onde trabalha aquele teu amigo garçon.
– Tranquilo, manda um abraço pra ele.

casadasprimas

Na porta havia um segurança que explicou: “A consumação é de R$ 30 e dá direito a três cervejas. Na sexta paga os R$ 30 e bebe à vontade”. Aí há um risco muito grande nesta suposta vantagem de se beber à vontade. Como alertou um amigo de alto QI: “O prostíbulo é um lugar de controle! Uma vez bebi demais e passei meu cartão pra pagar na alta madrugada. Acho que contratei uma capa de revista, não lembro de nada, mas a fatura daquele mês foi marcante!”.

Voltando a minha pesquisa, entrei no recinto e sentei no meio do balcão que era em formato de “U”. Negociei com o barman pra trocar as cervejas por Coca-Cola. Ali foi o único lugar do mundo em que estive e não precisei pedir um copo com gelo, veio automaticamente com a latinha. O cenário era aquele que aparece em filmes e novelas, com pouca luz e decoração escura. Na ponta do balcão havia uma mulher diferente das outras, fisionomia séria, tomando um drink. Aposto que os serviços dela eram mais caros, me pareceu mais requintada e estava vestida como se estivesse num shopping. Isso é uma coisa que mexe com o fetiche da clientela, dando a sensação que conquistaram e estiveram com uma mulher normal e por que não dizer, até fisicamente parecida com alguma outra desejada nos seus círculos. Dizem que as sósias das celebridades são quase impagáveis. E realmente essa guria era especial, foi a única que estava sozinha e que não foi me abordar. Ficou ali, numa posição soberana, tentando entender porque aquele sujeito mexia no celular e tomava refrigerante. Não cedi às tentações, trabalho é trabalho.

Eu também estava numa posição planejadamente esnobe, meio de costas para as outras meninas que circulavam pelo ambiente. Muitas foram até mim. Quase todas me chamando pela alcunha de “amor”, palavra complicada para um autor usar, imagine, se “amigo” eu uso com a maior parcimônia possível. Como disse o Ariano Suassuna, lendo um recorte de jornal que elogiava o Chimbinha, da banda Calypso: “Eu sou um escritor da língua portuguesa. Se eu gastar o adjetivo ‘genial’ que usaram aqui, pra definir o Chimbinha, qual eu vou usar pra definir o Bethoven?”.

E foi assim: “Oi amor, tudo bem? Qual o teu nome amor? Amor, sabe como que funciona a casa? O programa custa R$ 200, ta interessado? O quarto é mais R$ 100 e tenho que tomar pelo menos duas doses? Legal esse teu topete? Bom esse teu perfume, né?”. Descobri que a teoria do seriado “O Negócio – HBO” estava certa: “No final das contas a mulher é o item mais barato da noite”.

Mas teve uma que foi mais pró-ativa, como se diz no mundo corporativo, ela “chegou chegando” pegando na minha cintura, jogando o cabelo bem cuidado pra cima de mim, dentes branquíssimos, voz imponente, trajes sumários, pele bronzeada, sotaque identificável, nome bem escolhido, cheiro inebriante. Gostei. Perguntei o que ela queria beber (R$ 45, a dose), antes que ela pedisse e essa ação minha fez com que ela começasse a mexer no cabelo. Olhou pro meu relógio, achou que eu era rico.
O papo foi longe. Falei porque estava ali, enfim a verdade. Por mais incrível que possa parecer, há ética nesses lugares. E fiz a entrevista que eu precisava. Ela tinha 12 tatuagens, uma filha e um namorado. Me mostrou as 8 chamadas perdidas dele.

Quando eu tinha 17 anos fui advertido por um padre: “Você não pode falar de Deus quando escreve”. Entendi que poderia escrever sobre quaisquer outros assuntos, inclusive as recorrentes histórias de “inferninhos”. Se serve de consolo, os nossos tupiniquins são bem mais humanos que os de Amsterdam, por exemplo, onde as meninas pareciam enjauladas em vitrines e eu preocupado quando vi de longe: “Essas branquelas nuas, devem estar congelando de frio”. De perto, vi que haviam uns aquecedores nos arredores.

Ainda bem que sou um cronista, pois um romancista famoso que precisava de mais informações disse que gastou “um apartamento” fazendo esse tipo de pesquisa.
Em tempo: naquela noite todas as profissionais tinham smartphones à mão e ficavam consultando o whatsapp a todo momento. O mundo está cada vez mais igual.

Crônica de MARCELO LAMAS, autor de “Indesmentíveis” livro em trabalho de parto. Escreveu também “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora” e “Arrumadinhas” – marcelolamas@globo.com.