Por: João Marcos | 6 anos atrás

Enquanto a maioria das pessoas adere a causas somente pela internet, nove jovens argentinos saíram de casa para viajar pela América vivendo na prática o que acreditam. No caso, que o trabalho não deve ocupar a maior parte do tempo das pessoas, e, sim, possibilitar a diversão.

O grupo, cujos membros têm entre 20 e 24 anos, parece estar aproveitando bastante o passeio e seu lema. Para seis deles, o trajeto começou a bordo de um ônibus Mercedes-Benz, datado de 1957 e todo decorado com pôsteres e reportagens sobre música e artes. É ele quem confere o nome ao movimento: Buena Vista.

Depois de passar um mês por localidades da Argentina, eles estão há três no Brasil – sem a mínima intenção de voltar. Uma temporada em Santa Catarina serviu para recuperar um pouco do “poder de compra”, ao trabalharem em um restaurante de Rio Negrinho. Também rendeu na “engorda” da trupe, que conheceu na praia de Canto Grande três conterrâneas que igualmente perambulam pelo país.

Agora unidos, dormem assim mesmo, os nove no ônibus, que mede algo como 3 metros por 1. O dinheiro que ganham vai quase todo para consertos no veículo, que, além de meio de transporte, serve de chamariz de pessoas, com quem eles adoram conversar.

Pontos de encontro

De quebra, dividem um pouco de seus talentos e cultura. Aos domingos, eles abrem a portinha do calhambeque na feira de carros antigos do Largo da Ordem para quem quiser entrar e conhecer.

Aos sábados, estão sempre no Museu Oscar Niemeyer, local já ocupado por muita gente que também não aguenta ficar em casa.

Em uma dessas perambuladas, foram abordados por Délio Canabrava, proprietário de diversos restaurantes no bairro Alto da XV.

“Já viajei muito e sei a falta que faz ser bem tratado.” Com esse espírito, o empresário abriu as portas do bar Canabenta para que o grupo se alimente, e eles retribuem fazendo um som todas as noites, embalados pelo violão de Juan Rodriguez e Leandro Gebbie. Entre as preferências musicais do grupo, constam nomes como Armandinho, Natiruts e Chimarruts. Desde que chegaram, encantaram-se com Raul Seixas e Seu Jorge, e, em Curitiba, com o Bardo Tatára. Fizeram também amizade com estudantes de design e rappers.

Destino

Quase todos são formados ou cursavam faculdade em La Plata quando decidiram partir, apenas dois deles em áreas artísticas. Mas, na nova identidade neohippie, todos investem em seus talentos. Em cidades pequenas de seu país, dois integrantes do grupo, cineastas, tiveram a ideia de projetar filmes em praças, para quem não pode pagar o ingresso do cinema. O projeto também era documentar a viagem – mas a câmera foi roubada em Bombinhas (SC).

Emilio Civale, que cursou relações internacionais, produz enfeites que chama “filtros de sol”. Carolina Perez conta que escreve contos e, por isso, quer que a irmã lhe envie uma máquina de escrever. “Espero que seja leve, para levar na mochila”, explica.

E Florencia Graziano pinta – para ela, a inspiração mesmo vem na praia. “Artista é um título que a sociedade dá a quem ela diz que é artista”, filosofa Emilio.

E até onde eles vão? “Cuba é um grande objetivo”, confessa Leandro. Na porta interna do automóvel, o retrato de Che Guevara não o deixa mentir.

Os próximos passos são Rio de Janeiro e Salvador, mas nenhum deles sabe dizer quando partem. “Não planejamos mais do que uma tarde”, diz Leandro.

Via A Gazeta do Povo