Por: Raphael Rocha Lopes | 6 anos atrás

“Oh! Cride, fala pra mãe/ Que eu nunca li num livro/ Que o espirro/ Fosse um vírus sem cura/…/ A mãe diz pra eu fazer/ Alguma coisa/ Mas eu não faço nada/ A luz do sol me incomoda/ Então deixa/ A cortina fechada/ É que a televisão/ Me deixou burro/ Muito burro demais/ E agora eu vivo/ Dentro dessa jaula/ Junto dos animais…/ Oh! Cride, fala pra mãe/ Que tudo que a antena captar/ Meu coração captura/”.

A letra acima poderia ser o drama de qualquer pai ou mãe dos dias de hoje, mas é da música “Televisão”, dos Titãs, uma das mais tocadas no longínquo 1985. Estourou em todas as rádios e programas de… televisão.

E o que se vê ali? O ritual de qualquer adolescente pseudo-rebelde. Rebeldes sem causa, como diria outro hit dos anos 80, da banda Ultraje a Rigor. Preguiçosos para pegar um bom livro e ler, não apenas folhear. Não levar a sério as coisas que as mães pedem para fazer. Ficar no escuro, no quarto, com as cortinas fechadas.

Naquele tempo pré-internet, a rapaziada ficava na frente da TV emburrecendo. E só havia quatro ou cinco canais. Ou então com os walkmans(discmans era para poucos) presos na cintura e os fones de ouvido grudados nas orelhas ao som de Titãs, Ultraje, Blitz, Paralamas, Tokyo, Biquini Cavadão, Kid Abelha, Plebe Rude, Cascaveletes, Legião Urbana e tantas outras bandas, só para ficar nas nacionais.

Hoje, o que se vê? Rebeldes com menos causas ainda. Preguiçosos de uma boa leitura. Teimosos com seus pais. Vidrados na televisão. Mas agora com o som e a internet ligados ao mesmo tempo. É o novo significado do “três em um”. E se saírem de casa, estão com seus i-pods ou celulares tocando música – e às vezes surpreendentemente músicas dos anos 80 do século passado!

E o que se pode esperar desses adolescentes? Provavelmente o mesmo que os pais dos adolescentes dos anos 80 e o mesmo que os pais dos adolescentes dos anos 70 e 60 e 50 esperavam.

Quanta coisa se criou e quantas coisas se criam em cada vez menos tempo. Como a evolução se dá em horas de ideias que antes eram materializadas em dias e ainda antes em meses e em anos!

Parece-me que não estamos ficando mais burros, apesar do que alguns apregoam por aí. Parece-me que estamos, de fato, evoluindo. E, talvez por isso, estamos ficando cada vez mais exigentes. Como pais, como pessoas mais velhas, como pessoas que se acham mais experientes, como pessoas que pensam que sabem mais do que os mais novos.

Claro, a humanidade não é perfeita. Perdemos alguma qualidade média quando se trata de cultura, no meu ponto de vista. Nivelamos, infelizmente, por baixo. Começamos a achar que Faustão e Gugu são programas informativos e que esse tal de sertanejo universitário se parece com moda de viola ou que esse chorogode é o nosso samba de raiz. Mas havia coisas estranhas no passado também, como Chacrinha, Show do Bolinha e outros programas do gênero. A diferença, possivelmente, é que os dos velhos tempos não se achavam paladinos de nada e nem vinham com papo sério para assuntos ridículos. Apenas queriam divertir a massa.

Esquecendo esse nivelamento barato e criminoso por um instante, porém, temos coisas fantásticas. Não sabemos exatamente no que isso vai dar, mas para um adolescente urbano de 15 anos hoje é praticamente impossível imaginar um mundo sem computador, internet e celular.

Para muitos adultos também.

Por Raphael Rocha Lopes