Por: Raphael Rocha Lopes | 5 anos atrás

Semana passada falei do “sem nome”, o cachorro que demos de aniversário para minha mãe e que ainda não tinha sido batizado.

Hoje vou falar dos “sem nome”, no plural. Das pessoas que costumam passar anônimas aos olhos da sociedade; que são veementemente ignoradas por boa parte dos cidadãos ditos bem-sucedidos. Pessoas que perderam seu amor próprio por várias razões; que se acostumaram a ser invisíveis e que têm medo de ser reconhecidas apenas quando cometem algum erro ou são tripudiadas.

Não é muito difícil perceber estas pessoas que perdem sua identidade ao longo da vida, reprimidas em seu mundo, alheias aos olhares ou simplesmente fora do campo de visão alheio. E várias podem ser as razões destas pessoas se refugiarem em suas próprias prisões pessoais.

Pode ser a própria timidez, suficiente para derrubar qualquer autoestima. Às vezes problemas na dentição, que fazem a pessoa ter medo de sorrir ou mesmo de falar por pura vergonha. Ou então o medo de falar errado ou de se sentir inferior na presença de pessoas supostamente mais letradas.

Vemos estes anônimos normalmente naquelas funções ou profissões consideradas, por muitos, inferiores, o que é uma grande falácia, pois a humanidade é uma grande engrenagem, onde todas as peças são importantes. E não é incomum vê-las passando de cabeças baixas, sem a coragem de olhar para frente ou para cima.

Esse assunto lembrou um livro que estou lendo – ou vice-versa. É o “Código de honra: como ocorrem as revoluções morais”, de Kwame Anthoy Appiah (Cia. das Letras, 2012). O livro trata da mudança de comportamentos sociais decorrentes de necessidades morais pontuais.

“Essa me parece uma conexão muito digna de nota. A identidade liga essa revoluções morais a um aspecto da nossa psicologia humana (…): nossa profunda e constante preocupação com a posição social e o respeito, nossa necessidade humana daquilo que Hegel chamou de reconhecimento. Nós, seres humanos, precisamos que os outros respondam apropriadamente ao que somos e ao que fazemos. Precisamos que os outros nos reconheçam como seres conscientes e pecebam que nós também os reconhecemos assim. Quando você avista outra pessoa na rua e seus olhos se encontram num mútuo reconhecimento, ambos estão expressando uma necessidade humana fundamental e ambos estão respondendo – instantaneamente, sem esforço – àquela necessidade que cada um indentifica no outro”.

No fundo, embora alguns discordem, ninguém é superior a ninguém. No final das contas vamos todos para o mesmo buraco. Dessa forma, nada mais lógico do que cumprimentar mesmo quem se esconde na sua pseudo-inferioridade e nas suas vergonhas. Os sorrisos fazem a diferença.

Um exemplo pessoal: já percebi que quando vou ao supermercado de paletó e gravata sou muito mais reconhecido e cumprimentado do que quando vou de chinelo e bermuda. Coisas do ser humano…