Por: Cláudio Costa | 3 anos atrás

Você está no trânsito e, de repente, ouve aquele apito característico. O chão passa a trepidar como em uma cena do Jurassic Park e em velocidade constante, leia-se bem devagar, passa o majestoso trem pelas principais ruas do Centro de Jaraguá do Sul. O Dia do Maquinista, o profissional que opera esse verdadeiro monstro do transporte, é comemorado nesta terça-feira (20), mas muita gente quer ver ele bem longe dessas bandas.

Dizem que um dos grandes sonhos dos jaraguaenses é a retirada dos trilhos dos arredores de Jaraguá do Sul. Até um mutirão foi proposto no Facebook para realizar tal façanha. Mas fique sabendo que a chegada do trem por aqui foi o advento responsável pelo desenvolvimento do que é hoje uma das regiões mais prósperas do Brasil. O ano de 1910 – quando foi aberto o tráfego da linha férrea entre São Francisco do Sul e Hansa (atual Corupá) – foi decisivo para a expansão da economia da Colônia Jaraguá.

Fotografia mostra o movimento na primeira estação. Foto: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul

Fotografia mostra o movimento na primeira estação. Foto: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul

“A ferrovia tem importância vital para o desenvolvimento do município. A partir de 1910, houve a diversificação da economia, composta por engenhos de farinha, produção de aguardente, laticínios. Ou seja, pequenas manufaturas que beneficiavam a produção agrícola e pecuária”, resgata a historiadora Silvia Kita, chefe do Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul. “Em 1917, houve a ligação com Mafra, que depois faria a ligação com São Paulo e o Rio Grande do Sul”, completa.

A ferrovia fez ligação com outras regiões do Brasil e abriu o caminho para o escoamento de produtos e a importação de máquinas. “Wofgang Weeg (proprietário da W. Weege & Cia Ltda, que deu origem a Malwee) pode trazer equipamentos e escoar a sua produção de banha, manteiga e outros laticínios”, ilustra Silvia Kita. “Dizem que o queijo deles era muito bom”, ressalta.

Integração com Mafra possibilitou o escoamento da produção para os grandes centros. Foto: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul

Integração com Mafra possibilitou o escoamento da produção para os grandes centros. Foto: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul

O trem também facilitou o transporte das pessoas até as grandes cidades. Com isso, a região da Colônia Jaraguá mostrou sua vocação para ser uma importante potência econômica, baseada na extração de madeira, produção agrícola e industrial. “Até a década de 60, a produção era escoada pela ferrovia, que muitas vezes não conseguia atender a demanda”, conta o levantamento feito pela historiadora Silvia Kita.

Mas, atualmente, o trem não tem mais utilidade para a região. Sem transportar pessoas e as riquezas do Vale do Itapocu, a estrada de ferro passou a ser uma espécie de “estranho no ninho” do dia a dia do trânsito da cidade. Em um levantamento rápido feito aqui perto do QG do Por Acaso, na passagem de nível que atravessa a esquina das ruas Augusto Mielke e Bernardo Dornbusch, no bairro Baependi, uma composição levou cerca de cinco minutos para passar. O bloqueio da via formou uma fila que preencheu os arredores do Fort Atacadista.

Composição leva cerca de cinco minutos para atravessar uma passagem de nível. Foto: Cláudio Costa

Composição leva cerca de cinco minutos para atravessar uma passagem de nível. Foto: Cláudio Costa

Segundo a assessoria de imprensa da Rumo ALL, empresa resultante da fusão da América Latina Logística com a Rumo Logística e concessionária da rede ferroviária, os trens transportam grãos do Norte do Paraná para São Francisco do Sul. Depois os vagões fazem o caminho inverso carregados de fertilizante, além de material siderúrgico para Araucária. Infelizmente, há casos em que uma parte da carga de grãos (milho e soja) acaba sendo derramada na linha férrea, o que configura um sério problema de poluição.

Entre cinco e seis trens passam pela região, mas não há horário definido para o tráfego das composições pela cidade. Diariamente, os trens atrapalham o trânsito dos demais veículos. Mas é preciso dizer que há vantagens no transporte ferroviário. De acordo com a Rumo ALL, as composições movidas a óleo diesel e eletricidade transportam cerca de 80 vagões. Cada vagão corresponde a três caminhões, ou seja, cada trem retira do das rodovias 240 veículos.

Na enome fila deste foto aparecem VINTE caminhõe. Foto: Informativo dos Portos

Fila enorme? Contamos, aqui aparecem não mais que VINTE caminhões. Foto: Informativo dos Portos

A solução para o problema seria o contorno ferroviário. Enquanto as obras que vão desviar os trilhos da área urbana de Joinville estão paralisadas para revisões no projeto, as de Jaraguá do Sul ainda nem tem um plano definido. O último passo dado em direção a esse caminho aconteceu em junho deste ano. Segundo o deputado federal Mauro Mariani (PMDB), que encabeça o pedido para a retomada da discussão sobre o tema pelo DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), serão necessários mais dois ou três anos para que a execução saia do papel. Nesse ritmo, a solução definitiva para o problema deve levar mais de dez anos, em uma projeção otimista.

Mas o que fazer com aqueles trilhos? O espaço deixado pelo trem ficaria ocioso? Dessas perguntas saíram mais uma solução para um dos maiores problemas de Jaraguá do Sul: a mobilidade urbana. Um VLT (Veículo Leve Sobre Trilhos) poderia preencher o espaço deixado pelo trem e absorvendo parte dos usuários do transporte coletivo e com integração intermodal. Nos moldes de outras cidades como Dublin e Amsterdã, o VLT é com certeza uma das boas ideias a serem absorvidas após a saída das composições do cotidiano jaraguaense.

Arte: Ricardo Treis

Arte: Ricardo Treis

Mas e a história? Saudosistas apelam para a manutenção dos costumes. O trem é uma marca de Jaraguá do Sul e corta toda a cidade. Ora, não é bem assim que as coisas andam. Mudanças são corriqueiras no processo de desenvolvimento das cidades. O que antes era uma solução para o isolamento da região, passou a ser algo que desagrada grande parte da população. Afinal, todos concordam que o trem gera problemas para o cotidiano da cidade.

Ninguém pode negar que a passagem desse gigante em uma área densamente povoada causa transtornos. “Vibrações ocasionadas pela movimentação do trem, o ruído que gera um desconforto aos pedestres, motoristas e edificações vizinhas, emitidos pela queima do combustível e a interferência no trânsito, que acarretam em congestionamento e alto risco de acidentes para pedestres e veículos”, comenta o professor de Engenharia de Infraestrutura da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) Yader Afonso Guerrero Perez, em entrevista ao jornal Notícias do Dia.

Passagens de nível representam perigo em áreas densamente povoadas. Foto: Cláudio Costa

Passagens de nível representam perigo em áreas densamente povoadas. Foto: Cláudio Costa

Bom, uma coisa é certa. A retirada dos trilhos de Jaraguá do Sul é coisa do futuro. Outras grandes obras de mobilidade estão em curso na região ou não. A duplicação da BR-280 (que parece caminhar a passos lentos) e o contorno rodoviário (que não tem nem data para sair) também fazem parte desse conjunto de ideias que podem fazer a vida dos jaraguenses melhor e que necessitam de muita vontade política. Agora, nos cabe ver onde esse trilho vai dar.