Por: Sistema Por Acaso | 8 anos atrás

A faxineira entrou no quarto religiosamente às oito da manhã. Ângela beirava os 50 anos, era uma beata. Houve dias em que alguns paroquianos de língua mais afiada aventavam mirabolantes histórias sobre o padre Jesuíno e ela. Boatos. Ângela não era apenas fiel a Deus; mantinha-se casta diante dos prazeres da carne.

Conformava-se com a artrite reumática. Dizia que a doença nos ossos era sua grande amiga, que a deixava mais próxima ao Senhor Jesus. Preparava-se para trocar os lençóis quando o bom sacerdote saiu do banheiro, e, como sempre fazia, saudou a empregada com um largo sorriso.

–    Bom dia, sua bênção, padre.
–    Deus a abençoe, Ângela – e foi para o refeitório, tomar café.

Sozinha no quarto, a mulher deu prosseguimento à labuta diária. De chofre, algo lhe chamou a atenção. Uma revista de “mulher nua” estava sob o travesseiro. O padre havia esquecido de guardá-la. Mas havia mais uma coisa: uma mancha sobre o lençol da cama, e, ao tocar o dedo médio, a faxineira sentiu a viscosidade do líquido. “Será creme de barbear?”, pensou a mulher. Levou o dedo a um centímetro das narinas e cheirou. Pareceu-lhe ter cheiro de Kiboa, a meleca. Ângela levou o dedo à boca, sorveu vagarosamente a massa gelatinosa, estalando várias vezes a língua para apurar o paladar e engoliu.

– Hm, parece pudim. Sem açúcar.

Encontrou a amiga temperando o almoço e contou o “milagre”.

–    Quer dizer que as dores sumiram? – perguntou a cozinheira.
–    É um milagre, Valdirene. Foi logo que saí do quarto do padre.
–    Ele a abençoou? Viu o Anjo da Misericórdia?
–    Não, não. Fiz o que sempre faço toda a manhã…ah, tem uma coisa que preciso lhe contar…

Dez minutos depois, aparecem o padre Jesuíno e um padre mais moço, o Ramirez, para inspecionarem o almoço do dia. A cozinheira não perdeu tempo:

– Padre, aconteceu um milagre. Ângela foi curada do reumatismo.
– Isto é verdade, Ângela? – pediu Jesuíno, cético que era. Desconfiava até das Escrituras e remoía-lhe a biografia do Messias ser tão parecida com a de Mithra, Adônis e outros deuses redentores pagãos. A fé é capaz de muita coisa. Ah, que poder tem a sugestão sobre os mais emotivos e crédulos.

– Verdade verdadeira, padre – atestou a própria agraciada pelo “néctar dos deuses” – veja, consigo até fazer flexões.
–    Você mudou o medicamento?

Não, padre, são os mesmos corticóides que me fazem engordar. Mas não vinham mais fazendo efeito. Até que hoje…

–    Até que hoje?…
–    Até que hoje Deus resolveu me curar.
–    Ângela, fale do “creme consagrado” – insistiu Valdirene, dando uma cotovelada na amiga.
–    Creme? Que creme? – perguntaram os padres.

Um mês se passou desde aquela manhã do “milagre”. Jesuíno decidiu se confessar. E Ramirez era o mais apto  a ouvi-lo.

– Date gloriam Deo – fez o padre Ramirez por trás da janelinha do confessionário. A Igreja tem registrado preciosas relíquias de santos como ossos, sangue, cordas vocais, dedos. Mas sêmen sagrado é a primeira vez na história.

–    Não brinque com algo tão sério, Ramirez – pronunciou o penitente.
–    Não estou brincando, Jesuíno.
–     Eu quero minha absolvição, padre.
–    Ora, Jesuíno, divertir-se sozinho não é pecado.
–    Uma santa mulher bebeu meu sêmen. Por descuido meu. Preciso de sua absolvição…
– Ao contrário, irmão. Você merece toda a glória dos céus, todos os cânticos sagrados dos anjos celestiais. Jesuíno, você é um Santo.

Nesse instante, padre Ramirez sai do confessionário, toma a mão de Jesuíno e a beija com fervor.

–    Padre Jesuíno, preciso que você cure minha gastrite.

Fernando Bastos – autor de Teofania, Homens que viam e conversavam com Deus (Design Editora).