Por: Ricardo Daniel Treis | 8 anos atrás

Um conto de Charles Baudelaire para o domingo, enjoy:

Ontem, no meio da multidão do bulevar, senti-me roçado por um Ser misterioso que eu sempre desejava conhecer, e que reconheci de pronto, embora nunca o houvesse visto. Decerto ele tinha, em relação a mim, desejo análogo, pois me lançou, ao passar, um piscar de olho significativo, ao qual eu me apressei a obedecer. Segui-o atento, e dentro em pouco desci, no seu encalço, a uma residência subterrânea, deslumbrante, onde resplandecia um luxo de que nenhuma das habitações de Paris poderia fornecer exemplo semelhante. Pareceu-me singular tivesse eu podido passar tantas vezes ao lado daquele prestigioso antro sem lhe adivinhar a entrada. Reinava ali uma atmosfera fina, embora capitosa, que fazia esquecer num abrir e fechar de olhos todos os fastidiosos horrores da vida; respirava-se uma beatitude sombria, parecia à que devem ter experimentado os comedores de lótus quando, desembarcando numa ilha encantada, banhada pelos clarões de uma tarde eterna, sentiram nascer-lhe, aos sons adormentadores das melodiosas cascatas, o desejo de não mais tornar a ver os seus penares, suas mulheres, seus filhos, e de não mais se remontarem às altas ondas do mar.

Havia ali fisionomias estranhas de homens e de mulheres, marcadas por uma beleza fatal, as quais nos parecia já ter visto em épocas e países de que me era impossível recordar-me com exatidão, e que me inspiravam antes uma simpatia fraternal do que esse temor suscitado, em geral, pela visão do desconhecido. Quisesse eu tentar definir de um modo qualquer a singular expressão daqueles olhares, diria que nunca vi olhos onde brilhasse mais energicamente o horror do tédio e o desejo imortal de sentir-se viver.

Ao sentarmo-nos, já o meu hospedeiro e eu éramos velhos e excelentes amigos. Comemos, bebemos além da medida todas as espécies de vinhos extraordinários, e, coisa não menos extraordinárias, tive a impressão, depois de muitas horas, de não estar mais bêbado que ele. No entanto o jogo, esse prazer sobre-humano, interrompera com diversos intervalos as nossas frequentes libações, e devo dizer que jogara e perdera minha alma, em partidas sucessivas, com despreocupação e leviandade heróicas. A alma é coisa tão impalpável, tantas vezes inútil e algumas vezes tão molesta, que eu experimentei, com essa perda, um pouco menos de emoção do que se houvesse perdido, num passeio, o meu cartão de visitas.

Fumamos com vagar alguns charutos, cujo sabor e perfume incomparáveis davam à alma a nostalgia de terras e felicidades desconhecidas; e, embriagado de tantas delícias, ousei, num acesso de familiaridade que penso não lhe ter sido desagradável, exclamar, apoderando-me de uma taça cheia até as bordas:

– À sua imortal saúde, velho Bode!

Conversamos também sobre o Universo, a sua criação e futura destruição; sobre a grande idéia do século, vale dizer, o progresso e a perfectibilidade; e, em geral, sobre todas as formas da enfatuação humana. A esse respeito, era Sua Alteza inesgotável em gracejos leves e irrespondíveis, e exprimia-se com uma dicção tão suave e tamanha serenidade na facécia como não encontrei em nenhum dos mais célebres conversadores da humanidade. Explicou-me o absurdo das diferenças filosóficas que até então se haviam assenhoreado do cérebro humano, e até se dignou confindenciar-me alguns princípios fundamentais, de que não me convém dividir a propriedade e as vantagens com quem quer que seja. Não se lastimou absolutamente da má reputação de que goza em todas as partes do mundo, assegurou-me ser ele mesmo a pessoa mais interessada na morte da superstição, e confessou-me que só uma vez receara quando ao seu próprio poder: no dia em que ouvira um pregador, mais sutil que os seus confrades, exclamar do alto do púlpito: – “Meus caros irmãos, não esqueçais nunca, aos ouvintes gabar o progresso das luzes, que a maior das astúcias do Diabo é persuadir-vos de que não existe!”

A lembrança deste célebre orador conduziu-nos naturalmente ao assunto das academias, e o meu estranho me afirmou que, em muitos casos, não desdenhava inspirar a pena, a palavra e a consciência dos pedagogos, e que assistia quase sempre, em pessoa, a todas as sessões acadêmicas.

Entretanto por tantas finezas, pedi-lhe notícias de Deus, perguntei-lhe se o vira recentemente. E ele respondeu-me, com uma despreocupação matizada de certa tristeza:

– Nós nos saudamos sempre que nos vemos, mas como dois velhos fidalgos em quem uma polidez inata não poderia extinguir de todo a memória de antigos rancores.

É pouco provável que Sua Alteza tenha dado jamais tão longa audiência a um simples mortal, e eu temia estar abusando. Por fim, quando a aurora tremeluzente ia branqueando as vidraças, esta célebre personagem, cantada por tantas poetas e servida por tantos filósofos que trabalham para sua glória sem o saber, disse-me.

– Quero que você conserve de mim uma boa reputação, e desejo provar-lhe que eu, de quem se diz tanto mal, sou algumas vezes bom diabo, para servir-me de uma das expressões vulgares entre vocês homens. A fim de compensá-lo da perda irremediável da sua alma, dou-lhe a parada que você teria ganho se a sorte o houvesse favorecido, isto é, a possibilidade de aliviar e de vencer, durante a vida inteira, essa estranha afecção do Tédio, fonte de todas as doenças e de todos os miseráveis progressos humanos. Nunca você terá um desejo que eu não o ajude a realizá-lo; você reinará sobre os seus vulgares semelhantes; será abastecido de lisonjas e até de adorações; a prata, o ouro, os diamantes, os palácios encantados, virão a seu encontro, rogando-lhe que os aceite, sem que tenha havido de sua parte o mínimo esforço para obtê-los; mudará de pátria e de região sempre que o ordenar a sua fantasia; fartar-se-á de volúpias, sem lassidão, em terras encantadoras onde sempre faz calor e onde as mulheres cheiram tão bem quanto as flores, – etc., etc… – acrescentou levantando-se e despedindo-me com um bom sorriso.

Não fosse o receio de humilhar-me diante de tão grande assembléia, eu teria de bom grado caído aos pés daquele jogador generoso para agradecer-lhe a inaudita munificência. Mas, pouco a pouco, depois que o deixei, a incurável desconfiança tornou a invadir-me; não ousava acreditar em tão prodigiosa felicidade; e, ao deitar-me, fazendo ainda a minha prece por um resto de hábito imbecil, eu repetia meio adormecido.

– Meu Deus! Senhor meu Deus! fazei que o Diabo cumpra a sua promessa!