Por: André Marques | 4 anos atrás

“É claro que o cara que estuprou é o culpado, mas as mulheres também ficam andando na rua de saia curta e em hora errada!”. Quem morreu pobre é porque não se esforçou o bastante.” “Se você trabalhar duro vai ser bem-sucedido, não importa quem você seja.  “O hacker que roubou as fotos dessas celebridades nuas está errado, mas ninguém mandou tirar as fotos!”. O que todas essas palavras têm em comum?

"Mulheres com roupas curtas pedem para ser estupradas", diz internauta.

“Mulheres com roupas curtas pedem para ser estupradas”, diz internauta.

O ser humano parece gostar de enganar sobre a ideia que tem de si mesmo, geralmente em prol de sua autoestima ou mesmo do pensamento primitivo de achar que esta sempre certo. Mas tem uma pessoa que nosso cérebro não consegue enganar: nós mesmos.

Praticamente nunca algum tipo de estupro tem algo a ver com comportamento ou quantidade/tipo de roupas que a vítima usava, outra coisa, normalmente são conhecidos que o cometem e não um completo estranho em uma rua escura e deserta. O que me assusta é ver que algumas campanhas publicitárias veiculam mensagens direcionadas às mulheres e não para os homens, por exemplo: “não faça algo que poderia levá-la a ser violentada”. Absurdo!

Marina Ruy Barbosa aparece sorridente caminhando pelos corredores do Shopping na Barra da Tijuca. Atriz teve fotos íntimas vazadas na internet.

Marina Ruy Barbosa aparece sorridente caminhando pelos corredores do Shopping na Barra da Tijuca. Atriz teve fotos íntimas vazadas na internet.

E quem pensa que não existem outras formas de ‘culpabilização da vítima’, se engana. Há muito tempo, em 1966, Melvin Lerner e Carolyn Simmons – dois pesquisadores – pediram a 72 mulheres para ver uma atriz resolvendo alguns problemas e levando choques elétricos por cada erro (que eram de mentira, mas elas não sabiam). Quando o vídeo acabava, as mulheres tinham que descrever as atrizes, e sabe o que elas diziam? Que elas haviam merecido os choques.

A pior parte é que somos condicionados a pensar que vivemos em um mundo injusto e imprevisível e isso é extremamente assustador, nós queremos estar no controle e nos sentir seguros. O problema é que na jornada pelo sentimento de segurança, começamos a criar mais inseguranças e passamos a ver mais injustiças. Um bom exemplo são os julgamentos diários que vemos as pessoas fazerem em relação a pobres ou viciados em drogas, dizendo que esse tipo de gente é ‘vagabunda e merece  se ferrar mesmo’, ou que ‘mulher de roupa curta merece ser estuprada’, todas essas afirmações não passam de falácias que partem de um princípio de que, no mundo em que vivemos, cada um tem exatamente aquilo e quanto merece.

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“O estuprador é quem está errado, é claro, mas…”, ‘mas’ nada, pode parar exatamente aí. O que vem depois do “mas” é quase sempre fruto de uma tendência humana de enxergar o mundo de uma forma completamente distorcida só para que ele pareça menos injusto.

Você concorda?

via Superinteressante