Por: Sistema Por Acaso | 15/07/2010

Dando uma zapeada pela tevê, parei num canal onde um músico brasileiro era entrevistado por uma repórter. A jovem, bem informada, questionou:

– Qual a sensação de ter duas filhas? Você sente falta de um menino em casa?

O cantor famoso respondeu:

– Ter duas filhas é maravilhoso. As mulheres são mais evoluídas, mais delicadas, mais misteriosas. Aprendo muita coisa com elas. Para suprir a falta de um filho homem em casa eu comprei um jipe velho. Ter um jipe é a mesma coisa: traz diversão, mas dá problema quando você menos espera, causa confusão, tranca a rua.

Na hora lembrei da minha atuação como o menino lá de casa. Desobedecia meus pais e levava aquela bicicleta vermelha para a escola, onde todos os colegas tinham o direito de dar uma volta, o que atrasava o início da aula e deixava a professora muito estressada.

Noutra ocasião, houve uma invasão descontrolada de formigas assassinas no bairro. Escutei na venda da esquina que gasolina era um bom remédio para exterminá-las. Espalhei o combustível nos formigueiros e ateei fogo. Incendiou a grama, o galão de gasolina e a garagem. Só depois descobri que a receita espantava os insetos apenas com o cheiro da gasolina. Seguramente se, ao invés de um casal de herdeiros, meus pais tivessem duas filhas, nada teria acontecido.

Na adolescência, fui promovido do time de futebol juvenil para o adulto, prematuramente aos 15 anos e escalado para uma viagem do Clube Comboyo. Meu pai não autorizou. Deixei a mala pronta. Quando minha mãe chegou do trabalho, falei que estava tudo acertado com o pai, peguei a assinatura da progenitora e vazei com o time, antes que ele voltasse pra casa. A suspensão da mesada foi pior do que eu imaginava, pois pra complicar tudo, o ônibus quebrou e retornamos da viagem um dia depois do previsto. Atestando que as mulheres são mais evoluídas, minha irmã dividiu comigo sua mesada por dois meses.

Hoje se comemora o “Dia dos Homens no Brasil”. Talvez o “Dia dos Meninos” fosse mais apropriado, pois conosco as confusões nunca deixarão de acontecer.

Segundo Mario Quintana: “Feliz daquele que não deixou morrer o menino que existe dentro de si.”

A propósito, os jornais, as revistas e os livros eram os únicos itens cujo valor da compra era liberado, mesmo quando as minhas mesadas estavam merecidamente suspensas.

Qualquer hora dessas vou pedir restituição daquelas que ficaram retidas na fonte.

Marcelo Lamas, autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com