Por: Sistema Por Acaso | 5 anos atrás

E o Roberval chegou de mansinho na minha mesa e me intimou:
– Agora só falta a tua parte!

Fiquei pensando em alguma pendência profissional que eu tivesse com ele. Não lembrei de nada e questionei:
– Desculpa, não tô lembrando. O que estou te devendo?
– Não! Não é que tu estejas devendo. Mas é o seguinte…já encomendei o jantar e as flores e despistei a Luzmarina.
– E tu precisas de mim pra quê?
– Ora, pra quê? Tu não é o escritor?
– E o que isso tem a ver?
– Vou pedir a Luzmarina em casamento hoje à noite e agora só falta tu ‘escrever’ o cartão.
– Como assim?
– Ué!? Vou te dar o cartão que comprei e ai tu escreve o pedido de noivado por mim.
– Como eu vou fazer isso?
– Bem, aí é contigo né? Tu és escritor, deves saber o que escrever.

Além de obituário, estatuto de time, carta para antecipar passaporte, eu tinha um certo histórico no segmento “amor”, pois fazia cartinhas pra uma namoradinha do colégio – mas a prima dela que fazia o papel de carteiro foi quem apaixonou-se – e também participei de uma tentativa frustrada de fazer uma guria voltar pra um amigo meu.
Como o Roberval era bem parceiro e eu torcia pelo casal, fiz o texto pro caboclo. Ele disse que apenas transcreveu e assinou. E o bolo já foi encomendado.

Noutra ocasião, a Gertrudes aprochegou-se:
– Oh! Lamas, tenho um convite pra te fazer…aceitas ser o comentarista do meu casamento?
– Claro que sim, respondi prontamente.
– Não queres pensar com calma e responder depois?
– Já tá confirmado!

Dei a resposta de bate-pronto por causa da consideração pela guria, que mesmo sendo de uma família religiosa, convidou a mim, um colega de trabalho, impossível recusar.
Somente na véspera do enlace, fui entender o porquê dela ter oferecido “um tempo pra pensar”. Ela entregou-me uma “apostila” com as minhas falas e de vez em quando eu passava a bola para o padre. No dia que aceitei o convite achei que seria apenas para ler um versículo.

Fiquei com a consciência pesada, pois embora eu tenha amigo padre, tenha jogado futebol no time dos seminaristas de Corupá e o hábito de preencher cadastro atestando ser católico, eu NUNCA me confessei e mesmo assim tava lá em cima do altar, no meio dos graduados.
Em contrapartida, eu li a Bíblia três vezes. Coisas da vida de escritor.

Marcelo Lamas, autor de Arrumadinhas.
marcelolamas@globo.com