Por: Sistema Por Acaso | 09/07/2014

Achei muito fera esse texto do Frederico Mattos, redator do Papo de Homem. Tive que compartilhar. Vale a leitura.

Nesses últimos dias de Copa em que o atleta Neymar sai machucado e se despede dos jogos finais, ouvi o seguinte argumento: “como as pessoas se comovem tanto com um atleta que ganha muito dinheiro enquanto ninguém falou dos desabrigados nas enchentes do sul ou dos mortos do viaduto em Belo Horizonte?”.

Imagem que pipocou na internet esse final de semana (autor desconhecido)

Imagem que pipocou na internet esse final de semana (autor desconhecido)

Esse tipo de argumento não é incomum e costuma apenas variar personagens e local. É como se houvesse uma censura discreta a respeito dos motivos pelos quais uma pessoa deveria se condoer na vida.

O raciocínio diz: “essa pessoa merece ser alvo de compaixão porque tem poucos recursos físicos/sociais/financeiros/psicológicos e se refere a uma catástrofe sem precedenes e aquela que que tem grana e status está fazendo firula, tempestade no copo d’água e merece sofrer um pouquinho pra ver o que é bom pra tosse”.

Entendo que, em muitos casos, a preocupação é com o contexto político ou que prioriza o cuidado com populações necessitadas e até um receio por alienação ou indução do olhar das pessoas para um problema menos crítico socialmente do que o outro. Mas, na vida cotidiana, parece que essa filosofia se manifesta quando alguém se martiriza afirmando que “existe fome na África e eu sofrendo porque perdi a pessoa amada”.

Vejo dois enganos nessa visão:

1. É possível hierarquizar a empatia pelo suposto grau de sofrimento e preparo do sofredor

Quando se trata de dor e sofrimento, há uma tentativa em rotular até que ponto um problema é legítimo e plausível ou não. Se uma pessoa faz manha, merece menos apoio do que outra que efetivamente passa por dor. Mas se alguém precisa fingir aflição para receber atenção, ela é tão necessitada de ajuda quanto a outra que passa por uma perda supostamente mais concreta.

Quem merece mais compaixão? Um homem que perdeu seu carro ou um garoto que chora por que furtaram seu celular? O critério seria quantificável pelo valor financeiro do que se perdeu?

Do mesmo modo, uma qualificação recai sobre pessoas que veem os pais morrerem e a outras que perdem seus filhos. Parece que a segunda está mais legitimada socialmente a padecer do que a primeira. Inclusive, se uma mãe não subir em cima do caixão do filho pequeno, aflita e desesperada, alguns até dirão que não existe amor de verdade ali.

No caso do menino Neymar, parece claro que a empatia das pessoas ocorreu muito por conta de uma identificação coletiva com o acontecido. Ele se preparou uma vida inteira para colocar todas as suas potencialidades para fora e, por uma fatalidade incontrolável da vida, foi interrompido irremediavalmente. Além do temor pelo destino da seleção, o que foi suscitado é uma dor pelos sonhos interrompidos que toda a pessoa carrega consigo.

Seleção de 1982 e você já tiveram essa sensação (Imagem: Rafael Tiltscher)

Seleção de 1982 e você já tiveram essa sensação (Imagem: Rafael Tiltscher)

Colocar uma hierarquia no grau de apego/sofrimento de alguém para direcionar a empatia parece soberbo da parte de quem quer definir o alvo da compaixão alheia.

2. Dinheiro / beleza / poder / fama blinda as pessoas da dor

O segundo engano gira em torno da ideia de que atributos pessoais de destaque tirariam o direito de qualquer pessoa a passar por frustrações e perdas significativas. “Ela é bonita, do que está reclamando? da pele do cotovelo?”, “ele é milionário, cala a boca e vai chorar dentro da sua Ferrari”.

Essa mentalidade parece associar pobreza com fraqueza inerente e riqueza com vilania, frieza e ingratidão.

É como se ninguém que tenha grandes recursos pudesse reclamar de uma dor no pé, como se sua conta bancária o isentasse de qualquer sensibilidade. “Ele vai se tratar no melhor hospital, logo, não tem direito de reclamar. Vai ser tratado com tudo do bom e do melhor”.

Essa  frase revela a autopiedade que muitas pessoas carregam e que legitimam qualquer espécie de reclamação pela frágil condição financeira.

Acontece o oposto com pessoas que possuem histórico de perdas pessoais, que ganham superioridade moral diante dos outros como se já tivesse um atestado de resiliência, sabedoria e nobreza de caráter, o que não é verdadeiro, afinal, bastaria uma tragédia na família para adquirir maturidade emocional. O processo de assimilação e aprendizado das pessoas cria condições de amadurecimento que independem do status de vida.

Pessoas pobres/anônimas/feias não são necessariamente melhores por condições alheias às suas escolhas do que pessoas ricas/famosas/bonitas. E vice-versa, claro.

Ninguém está blindado de problemas pessoais porque tem um ar condicionado refrescando seu rosto. O sofrimento é particular e proporcional às suas próprias estruturas internas que nem sempre dependem de condições externas favoráveis ou não. O mito do rico blindado de dor é uma distorção da pessoa que acha que, ao “crescer na vida”, será poupada de qualquer dor que este mundo reserve inevitavelmente para quem é pobre.

Podemos, sim, sentir pelas pessoas que perderam seus bens em uma enchente e, claro, devemos cobrar o olhar para uma tragédia que pode ter sido causada por má administração de uma obra pública, mas quando se trata de compaixão, parece ser um pouco mesquinho determinar para quem nossa atenção e empatia deveria ser direcionada a pretexto de priorizar pautas “mais nobres” em detrimentos de outras.

O critério de nobreza sempre será, em alguma medida, subjetivo e, portanto, questionável, inclusive se a própria ideia de nobreza for válida na esfera da compaixão.

Fonte.