Por: Sistema Por Acaso | 04/09/2017

Talvez você se lembre de um momento emocionante na abertura da Rio-2016. Enquanto os locutores falam sobre o problema do aquecimento global e são mostradas imagens do mundo sob o impacto do derretimento das calotas polares, um garoto entra no gramado do Maracanã, vai até o centro, onde descansa, solitária, a muda de uma árvore. “Será que tem jeito?”, questionam. Fernanda Montenegro lê o poema “A Flor e a Náusea”, de Carlos Drummond.

Então, é anunciado em francês, inglês e português, a seguinte promessa: “Durante a sua entrada cada atleta semeará uma árvore nativa do Brasil. As 11 mil mudas serão plantadas no Parque Radical. A Floresta dos Atletas será um legado para o Rio de Janeiro.”

Os participantes fazem a festa e, no corredor central, os voluntários trazem os totens onde deverão ser depositadas as sementes de 207 espécies da Mata Atlântica, que representam cada uma das delegações. Havia ainda a intenção de se fazer um filme para documentar o resultado da iniciativa até 2020, que deveria ser exibido na Olimpíada no Japão.

Mais de um ano depois, as mudas continuam no mesmo lugar, em posse da Biovert Engenharia Ambiental e Florestal, em Silva Jardim, no interior do Estado do Rio. E o assunto só não caiu no esquecimento porque o Tribunal de Contas da União resolveu cobrar a dívida do comitê organizador e da prefeitura.

“Ao fazer a promessa perante a comunidade mundial, o Comitê Rio-2016 vinculou-se, sobretudo moralmente, por conta do seu dever de probidade, e não apenas pelo fato de a Floresta dos Atletas e o Bosque dos Medalhistas representarem uma parcela mínima daquele compromisso de plantio de 24 milhões de mudas estabelecido no Dossiê da Candidatura. Consumada tal inadimplência, ficará a frustração causada pelo engodo, pela encenação”, foi a bronca oficial do TCU.

Tem lá um filme com o então prefeito Eduardo Paes, todo pimpão, brincando de plantar árvore em Deodoro. Esse é outro capítulo triste da nossa história olímpica. O Parque Radical foi erguido no Morro do Capim, no bairro da Zona Norte da cidade. Era um descampado que ganhou as instalações que serviram para as competições de canoagem. Inaugurado em dezembro de 2015, era a diversão da comunidade local, até ser fechado para os Jogos. Nunca mais foi reaberto.

Necas de legado. Nem parque para a população nem floresta para salvar o mundo do aquecimento global.

O Brasil assumiu um compromisso perante uma audiência de 2,5 bilhões de pessoas naquela noite. Estamos carecas de ver promessas não serem cumpridas. Está lá no Dossiê da Candidatura a de limpar a baía da Guanabara e o complexo lagunar de Jacarepaguá, que está condenado. Nada foi feito. Mas muito dinheiro foi gasto.

Com a pressão do TCU, a prefeitura diz que as mudas serão transportadas para Deodoro em 21 de setembro, mesmo dia em que o Parque deve ser reaberto para a população. Mas a Biovert trabalha com o prazo determinado pelo tribunal de fazer o replantio em novembro.

Se o aquecimento global tem jeito, não faço a menor ideia. Mas em se tratando das promessas feitas por políticos e dirigentes esportivos, posso afirmar que essas dívidas não correm o menor risco de serem honradas como deveriam. E a gente ainda paga um mico mundial.

Texto: colunista Mariliz Pereira Jorge/Folha de S. Paulo***