Por: Gabriela Bubniak | 2 anos atrás

Quem nunca ouviu um “Coloque alguma coisa na cabeça!” da própria mãe nos dias muito frios? A recomendação é pra lá de comum e normalmente se baseia na crença de que a maior parte do calor produzido pelo seu corpo escapa para o ambiente pela cabeça, ou que essa parte do corpo é mais suscetível a quedas de temperatura do que o resto. No entanto, essa ideia popular não passa de um mito.

A lógica por trás dessa afirmação normalmente é explicada com a combinação da grande quantidade de sangue na região e da falta de elementos isolantes, como gordura. Nos Estados Unidos, a lenda ganhou força por causa da má interpretação de uma cartilha militar da década de 1960. Na época, as forças armadas norte-americanas fizeram estudos para analisar a perda de calor corporal em temperaturas extremamente frias.

O resultado desses testes deu origem a uma parte do manual que afirma que uma pessoa “pode perder de 40 a 45% da energia térmica do corpo por conta de uma cabeça desprotegida”. O problema é que a frase está fora de contexto, já que na ocasião do estudo as cobaias vestiam trajes especiais contra baixas temperaturas, mas não tinham nada sobre a extremidade superior – o que elimina a surpresa de terem maior perda de calor na região.

Então como funciona?

Na realidade, a quantidade de energia térmica liberada por qualquer parte do corpo depende fortemente de sua área de superfície. Se o experimento descrito acima fosse conduzido com pessoas vestindo apenas trajes de banho, elas teriam perdido calor de forma mais ou menos equilibrada pelas partes expostas, limitando a quantidade que sai pela cabeça a cerca de 10% – que é a percentagem aproximada da superfície corpórea representada pela região.

Maior exposição de pele resulta em perda mais acentuada de calor corporal. Portanto, se você proteger seu corpo com mais camadas de roupas durante um dia frio, a tendência é a energia térmica escapar pelas áreas menos isoladas. Dessa forma, se sua cabeça é a única perda descoberta, então você certamente perderá mais por lá – o que não significa que, de forma geral, a afirmação seja correta.

Outro fator que provavelmente ajudou a perpetuar o mito é o fato de que a cabeça, face e parte superior do peito são até cinco vezes mais sensíveis a mudanças de temperatura do que outras partes do corpo. Ao cobrir essas áreas, sentimos que estamos prendendo mais calor, ainda que proteger áreas com quantidade de superfície similar tenha o mesmo efeito. Moral da história? Escute sua mãe, mas não cubra só a cabeça.

Curiosidades adicionais

  • O corpo responde a temperaturas baixas de duas formas: a primeira é restringindo a circulação de sangue nos braços e pernas, o que ajuda a proteger o cérebro e órgão vitais, mas deixa os dedos suscetíveis a congelamento, literalmente os sacrificando pelo bem maior; a segunda é a tremedeira, que faz com que os músculos gerem calor;
  • Outro mecanismo de conservação de energia térmica é o arrepio, que embora não tenha efeitos consideráveis nos seres humanos, serve como forma de aumentar a camada isolante dos pelos ou penas em outros seres vivos;

6289854951313209

  • As manchas de uma girafa são mais do que apenas camuflagem: embaixo de cada uma delas há um sistema de circulação de sangue que serve como uma espécie de janela térmica, permitindo a liberação de calor corporal.

south-africa-927280_1920Fonte: Mega Curioso
Fotos: Reprodução/UOL