Por: João Marcos | 3 anos atrás

Ontem a noite após assistir ao musical da Cássia Eller, que rolou em Joinville, voltei pra casa discutindo a peça com minha irmã e entramos no tema “Mulher vs Sociedade Brasileira”. Mostro o espanto, dado que em 80% do tempo eu e minha irmã geralmente estamos brigando ou falando besteira um pro outro, como a maioria dos irmãos fazem, e por conta disso fiquei surpreso com a “qualidade” do tema, haha.

Papo vai e papo vem, cheguei a uma conclusão dolorosa e também curiosa, que inclusive compartilhei ontem na minha timeline:

NÃO É FÁCIL SER MULHER NO BRASIL

Ahhhhh mas o que você homem, ogro e grosso sabe sobre isso? Nada. Mas na conversa não é difícil ter a percepção de tal dificuldade, olha só:

– Se uma mulher é estuprada no Brasil, já não basta todo o constrangimento e dor do fato, ainda tem que provar pra sociedade que a culpa NÃO é dela disso ter acontecido. Não é pelo fato de estar usando roupa curta ou bebendo com as amigas que ela queria que isso acontecesse. Que isso, cara? Nada dá o direito a um homem de simplesmente ver uma mulher na rua e atacá-la, NADA. Parafraseando Emicida, sobre quem pensa dessa forma:

Isso é uma doença. Isso precisa ser combatido.

– Depois do estupro ela é proibida de abortar. Ok eu sei que esse tema do aborto é algo polêmico o bastante e discutido há anos, mas agora, querem proibi-la também de tomar um remédio no dia seguinte que talvez, repito, TALVEZ pudesse evitar uma gravidez não planejada, sem consentimento, concebida em um dos piores momentos de sua vida. Vocês estão percebendo o quão absurdo isso soa?

– Passado isso, só resta esperar o filho nascer para criá-lo. Afinal, mulher é mulher, e só ela sabe o quanto seu coração é verdadeiro e sincero. Mesmo sendo fruto de algo tão brutal, ela irá amar e criar essa criança com todo o amor possível que carrega no peito. Mas aí quando o filho nasce e ela está ali ralando diariamente pra poder dar o melhor para ele, ainda tem que ver nego bostejando pela boca, apontando o dedo para eles e dizendo que mãe e filho não são/serão considerados uma família perante os “olhos da sociedade”…

MANO! Como diria Racionais, “eita mundo bom de acabar, viu?”.

Me diga se essa situação não é algo que requer discussão? Que requer atenção e principalmente comoção nacional. Estamos falando de mulheres, estamos falando de suas mãe – sim, pois se você não esqueceu, pelas leis naturais da vida, você tem uma.

Então chego em casa e descubro que o tema da redação do ENEM 2015 foi o seguinte:

inep_enem_redacaoAchei simplesmente fantástico! Apesar de ainda ter gente achando que isso é um absurdo (hahaha cada dia mais, eu perco as esperanças), achei simplesmente sensacional o fato desse tema ser discutido de maneira tão ampla e aberta pelo Brasil, abrindo espaço para uma nova discussão, uma nova ideologia, vinda de mentes novas, vindo, literalmente, do futuro do país.

Vocês não fazem ideia do quão eu gostaria de ser um desses avaliadores, apenas para saber qual o pensamento da juventude quanto a isso. Interpreto essa persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira não apenas falando de agressão física. O desrespeito, discriminação, objetificação e desigualdade são formas de violência que machucam tanto quanto ou até mais que qualquer soco.

Pensando nisso, vou contar uma historinha pra vocês bem curta, mas que se eu estivesse fazendo ENEM ontem, acredito que contaria na prova – mesmo fugindo um pouco do tema:

Essa é a história de uma mulher chamada Rosangela Dantas de Souza. Independente, Rosangela deu a luz ao seu primeiro filho aos 22 anos, solteira, pois separou-se do marido machista que queria atrapalhar e acabar com sua liberdade – achando que o fato dela ser sua esposa o dava direito de achar que literalmente ela era SUA, e não tivesse mais pensamentos e vontades próprias. Rosangela seguiu sua história, e nunca mais ouviu-se falar desse cara.

Aos 24 anos ela via nascer seu segundo filho, agora uma menina linda de cabelo preto e olhos claros, uma boneca, fruto de um segundo relacionamento que, por motivos semelhantes ao primeiro, também não deu certo. Mas este, ao menos se importava e fazia questão de conhecer e, no mínimo, ser um pai distante pra filha que colocara no mundo.

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Então aos 24 anos, Rosangela vivia um drama semelhante ao de milhares de mulheres brasileiras: solteira, nova e com dois filhos para criar.

Rosangela é professora da rede pública de ensino (sim, apesar da nobreza da profissão, sabemos o quão discriminada e pouco valorizada ela é). Mas mesmo assim ela criava seus dois filhos com seu salário de professora e não deixava com que faltasse nada na vida deles (pois na dela, obviamente deixou muitas coisas para trás, visto suas novas responsabilidades).

Mas mesmo assim, visto todas essas dificuldades, Rosangela ainda encontrou tempo para se formar, se especializar em Educação Especial (outra minoria esmagada e discriminada) e criar muito bem seus filhos. Mas acredito que seja doloroso pra ela ainda ter que chegar em casa depois de um dia exaustivo de trabalho, ligar a TV e ver no noticiário alguém dizer que mesmo depois disso, ela não conseguiu constituir uma família, que seus filhos podem ter “problemas”.

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Sua filha mais nova, aquela boneca que citei no início do texto, tem hoje 22 anos e, por ironia, quis o destino que ela seguisse praticamente os mesmos passos de sua mãe. Hoje ela também tem uma filha de beleza e brilhos iguais aos dela quando criança, uma linda chamada Betina, e também é uma mãe solteira guerreira, por conta dos mesmos motivos que fizeram sua mãe, mas que cuida e zela pela sua filha com uma força e respeito dignos de nota.

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Seu filho mais velho, hoje com 24 anos, já é formado, trabalhou e estudou fora do Brasil e está aqui agora escrevendo esse texto pra vocês.

Sim a Rosangela Dantas de Souza é minha mãe e como pode ver, mesmo depois de tanta dificuldade e luta, ela não falhou na educação e na criação minha e de minha irmã. Me espelho na força e na pessoa que ela é, pra vida. E além disso, a figura materna nota-se que é de grande inspiração para minha irmã na criação da minha sobrinha, Betina.

Mãe, dá bola pra sociedade não tá? A gente te ama e é nisso que tu tens que focar.

Mãe, a gente tem uma família sim. Ok? E olha só que linda ela é:

maaae

Na foto, além de minha irmã, mãe e sobrinha, estão minha avó e tia, que são viúvas e prima. Ou seja, convivo com seis mulheres lindas, independentes e fantásticas. Diz pra mim se na minha mente tem espaço pra preconceito?

Quisera eu que Bolsonaros, Felicianos, machistas e retrógrados tivessem a honra e o prazer de conviver com elas por pelo menos um dia, acredito que boa parte de seus pensamentos e ideologias escrotas cairiam por terra.

Mals aí galera pelo texto longo, mas devo dizer que essa é a história (beeeem) resumida das nossas vidas e principalmente da vida da Rosangela que eu precisava compartilhar com vocês.

Te amo, mãe. E mana, fica tranquila. Todos temos muito orgulho de você… A FAMÍLIA que você está constituindo é maravilhosa.