Por: Sistema Por Acaso | 24/02/2016

Olhando a destacada prateleira de autores Bageenses e com o livro “A Sociedade dos Fazendeiros”* em mãos, fui interceptado pela vendedora, antes de abri-lo: “Este livro traz a história do prostíbulo mais famoso que tivemos por aqui”. Sai da loja com a publicação recente debaixo do braço, pois ganhei da namorada. Certa feita ela ficou impressionada quando líamos o livro de um amigo – digo líamos porque sou o áudio livro dela – e a história começou a apontar para uma casa de tolerância e eu matei a charada: “Daqui a pouco vai aparecer uma Samira!”. E apareceu, com a mesma alcunha. Não sou daqueles que se iniciaram nos inferninhos, porém, em uma ocasião, viajei de SC para um evento familiar no RS e sai arrastando o pé com minha tia e a festinha parou: “Onde Marcelo teria aprendido a dançar?!”, “Cadê aquele guri que ficava parado pelos cantos dos bailes?”. Já era!

O escritor Deonísio da Silva explica em “De onde vêm as palavras” que o termo “meretriz” surgiu para designar as mulheres que acompanhavam os militares em expedições – que recebiam salários por mérito / meretriz – e há registros de que a prostituição masculina remunerada é ainda mais antiga. Na Grécia, existiam três classes de messalinas: as que ofereciam debates intelectuais, além do sexo; as musicistas que tocavam instrumentos e complementavam o serviço com sexo e as simplórias que estavam limitadas ao prazer sexual.

Voltando ao “Sociedade dos Fazendeiros” o autor adverte na orelha que: “O livro é pura ficção. Ninguém está autorizado a substituir locais, tempos e pessoas por realidades que possam identificar os sucessos narrados”. Pela riqueza de detalhes percebe-se que é tudo verdade e é isso que me interessa: as histórias verdadeiras. Naquela um poderoso coronel construiu um palácio e colocou sua fiel amante para administrar o seleto lupanar. E lá nos idos da década de 1950, a Palmira era uma visionária, que além de contratar camareiras, garçons e cozinheiras – literalmente comia-se nestes lugares – , contratou um relações públicas (!). A casa foi um sucesso e teve seu declínio junto com a crise econômica que estagnou os negócios de gado daquela região. Acabou o dinheiro, acabou o “amor”.

É lamentável que o assédio moral, presente em todas as profissões, no caso das meretrizes, se apresente com o proxenetismo – favorecimento com a prostituição de outrem – que caminha para o alcoolismo delas, na melhor hipótese.

Li em algum lugar que o bordel é o lugar onde ocorrem as relações comerciais mais verdadeiras: elas por dinheiro vendem prazer e eles, por prazer oferecem dinheiro e ninguém se sente enganado. E o Nelson Rodrigues (1912-1980) alertava: “A prostituta só enlouquece excepcionalmente. A mulher honesta, sim, é que, devorada pelos próprios escrúpulos, está sempre no limite, na implacável fronteira”.

PS: Beijo pra Samira!


Texto por Marcelo Lamas, autor de “Indesmentíveis”
marcelolamas@globo.com

*FERRUGEM, Morvan. A Sociedade dos Fazendeiros. Bagé, LEB Editora, 2015.