Por: Raphael Rocha Lopes | 6 anos atrás

Em outro texto  mencionei o filósofo Voltaire e sua famosa frase: “Posso não concordar com uma palavra do que dizes, mas defenderei até o último instante teu direito de dizê-las”.

Defendi, naquele texto, o direito às vaias em contraposição a alguns políticos que simplesmente reputaram – em episódios daquela época – que isso é pura falta de educação. Escrevi lá: “Ora, se podemos aplaudir o que gostamos, por que não podemos vaiar o que não gostamos? As vaias nada mais são do que as manifestações de repúdio a determinados comportamentos ou idéias. São desconfortáveis? Sim, são, sem dúvida. Mas quem vive no mundo público, em especial o político, deve saber assimilar e aprender com as vaias. Podem, as vaias, ter conotação puramente político-partidária, sem conteúdo construtivo ou de mérito? Podem, sim, infelizmente. Entretanto, nestes casos, a pessoa vaiada deve ter discernimento e postura suficientes para não cair no jogo.”

Lembrei do assunto com a polêmica envolvendo a blogueira cubana Yoani Sánchez, que se autodefine como “um pouco jornalista, um pouco filóloga, muito ativista, não dedicada integralmente à política, uma soma de muitas tendências, compromissada com a liberdade, preocupada com os mais pobres; uma pessoa transversal” (programa Roda Viva, da TV Cultura, desta última segunda-feira, 25.02.2013).

Foi surpreendente o comportamento de alguns brasileiros com a sua vinda para cá. Algumas pessoas simplesmente não permitiram que a bloqueira ministrasse suas palestras, chegando a conseguir impedir que a mesma acompanhasse uma sessão de um documentário e de, em outro momento, lançar seu livro. Surpreende sobremaneira porque não faz, historicamente, tanto tempo assim que lutávamos por liberdade de expressão, jornais livres e debate aberto e amplo.

Os “contra” a blogueira argumentam que ela não passa de uma fraude, desmascarada no final do ano passado pelo Wikileaks e por um jornalista francês, alegando que a enorme quantidade de seguidores no Twitter é irreal, com muitos perfis falsos, que tem estreitíssima relação com o governo norte-americano e que não conseguiu provar nada sobre um suposto sequestro seguido de espancamento que sofreu em Cuba.

Não quero discutir, aqui, se Yoani Sánchez é uma farsa ou não. Não quero, também, dizer se as vaias são devidas ou indevidas. Apenas gostaria que após as vaias se desse voz para que ela se defendesse ou se manifestasse. Ou que a deixassem dizer o que tem a dizer para, se discordassem, então a vaiarem.

A liberdade é uma via de mão dupla: pode-se discordar, mas se deve saber ouvir. O argumento é a principal arma. As vaias e os aplausos apenas uma parcela do jogo democrático. Quem não sabe – ou não quer – ouvir hoje, não poderá reclamar amanhã