Por: Sistema Por Acaso | 5 anos atrás

A expressão de uso comum “O povo quer pão e circo” está ultrapassada. A geração atual quer é “Ver o circo pegar fogo”. Meus amigos são assim. Desafiaram-me a escrever sobre o tema desta história. Disseram que eu não teria coragem. Mas eu precisava deixar o ocorrido registrado. Como disse Goethe, citando um sábio: “Quem não se sentir com tutano suficiente para o necessário e útil, que se reserve em boa hora para o desnecessário e inútil”. É o que eu faço: inutilidades.

Voltemos no tempo. Lá pelos meus quatro anos de idade (eu fiz a conta, era isso mesmo), num almoço, meu primo me tirou do sério.

Ele tomava um gole do suco de laranja dele e, em seguida, pegava o meu suco e completava seu copo. E dava uma risadinha sarcástica demais para um guri de seis anos. Fiquei esperando uma oportunidade. Num momento de distração dele, peguei seu copo, bem cheio, e joguei na cara dele. Com raiva. Isso bem antes de virar cena clássica de novela.

Imediatamente minha mãe me chamou num cantinho e aplicou a “medida educacional imediata”. Funcionava bem aquele negócio.

Primeiro um sermão enorme, pois eu não poderia ter agido daquela forma violenta com o meu primo-irmão. Eu deveria tê-la comunicado e ela, a autoridade, tomaria as providências. Depois a lição foi para a parte do respeito, na hora sagrada da refeição aquela atitude minha era inaceitável. Talvez até algum dos dez mandamentos ela deva ter citado. E por final, o pior, uns bons sopapos no traseiro. Naquela época a legislação era outra

Recentemente, numa roda de bar, uma menina veio com uma conversa acerca do namorado, que deixou a macharada indignada.

Para apimentar o relacionamento, ela chegou à casa dele e, entre quatro paredes, tirou da bolsa um leite condensado. Quando o rapaz viu aquilo teve um surto e repreendeu-a: “Com comida não se brinca!”. Ela guardou a lata e o clima acabou.

Provavelmente, no passado, ele deva ter sofrido alguma sanção da “medida educacional imediata”, relativa à comida e, seguramente, apanhou muito mais do que eu.

Parafraseando o mestre Millôr Fernandes: “O intelectual pensa que o sexo oral é ir pra cama com uma mulher e ficar a noite inteira falando em sexo”.
Por Marcelo Lamas, autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
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