Por: Raphael Rocha Lopes | 6 anos atrás

Nessa última segunda-feira foi manchete a história de dois moradores de rua, catadores de lixo, que encontraram um saco com aproximadamente 20 mil reais, jogado de um viaduto.

Chegamos, como cidadãos brasileiros, ao espanto de dar gigantesca ênfase a comportamentos desta natureza. Isto é, não apenas ressaltamos o gesto correto, colocamos-o como algo tão extraordinário e fora dos padrões a ponto de ficarmos surpresos com tanta honestidade. Isso sem contar todo um mar de gente que deve ter pensado: “que trouxas”. O casal, além de um almoço de reis, recebeu do restaurante dono do dinheiro uma proposta de treinamento e trabalho. Que tudo dê certo para todos os envolvidos.

Iniciei com a história que repercutiu na mídia essa semana porque me fez lembrar de uma tese que defendo: a Lei de Gerson foi revogada pela Lei de Zeca Pagodinho.

Meus leitores um pouco mais velhos (ou meus alunos) lembram de um anúncio publicitário do cigarro Vila Rica. A estrela da peça foi Gerson, o jogador de futebol da Copa de 70, conhecido como “Canhotinha de ouro”. Ao final do reclame Gerson proferiu as famosas e malfadadas frases: “Gosto de levar vantagem em tudo. Leve vantagem você também. Leve Vila Rica”.

Ele se referiu ao cigarro ter um filtro melhor pelo mesmo preço dos da concorrência. Entretanto, a coisa descambou para o lado errado. A frase foi associada ao “jeitinho brasileiro”. E o fato de o brasileiro querer “levar vantagem em tudo” foi eternamente associado ao que ficou conhecido como a “Lei de Gerson”. Faço uma ressalva. Há alguns anos vi uma entrevista do jogador dizendo que essa campanha é um dos poucos arrependimentos da sua vida, nunca imaginando que poderia ter uma conotação tão negativa.

Pois bem. Aviso aos leitores de plantão: a Lei de Gerson foi revogada. A Lei de Zeca Pagodinho, por ser mais abragente, levou a outra ao ostracismo. A Lei de Zeca Pagodinho diz: “não basta apenas levar vantagem em tudo, tem que rasgar o contrato também”.

Muitos dos leitores (e nem precisam ser os mais velhos ou meus alunos) devem recordar da campanha publicitária da cerveja Nova Schin com o slogan “Experimente!”. Foi uma campanha maciça que contou com a participação de inúmeros artistas famosos, dando-se destaque ao Sr. Jessé Gomes da Silva Filho, mais conhecido como Zeca Pagodinho, por ser confesso apreciador da cerveja Brahma.

Ocorre que a referida campanha mexeu nos números das vendas de cerveja no país de uma forma imediata. E o que a Brahma (Ambev) fez? Aliciou o Sr. Jessé para fazer publicidade pela marca do coração. E ele, apesar de ter assinado um contrato, o qual estava em plena vigência, simplesmente o rasgou, passando a estrelar a campanha da Brahma. Não sendo suficiente, ainda cantou uma música chamada “Amor de verão”, referindo-se ao “romance” com a Nova Schin.

A Justiça, contudo, não compactuou com tal absurdo e condenou o Sr. Jessé a pagar em favor da empresa Primo Schincariol (dona da marca Nova Schin) valores bastante consideráveis pela quebra de contrato e por danos morais. A empresa de publicidade envolvida que assediou o cantor também foi condenada.

Por isso a lição da mãe de um dos catadores lá do início do texto, conforme ele disse em uma das entrevistas, é importante: “não pegue o que não é seu”. Ou, em outras palavras, simplesmente respeite os outros.

Por Raphael Rocha Lopes