Por: Gabrielle Figueiredo | 11/12/2015

Quem encontra os cães do 14º Batalhão de Polícia Militar de Jaraguá do Sul na rua ou em eventos percebe imediatamente a postura profissional desses animais. Atentos e focados, esse é o resultado do treinamento que recebem na unidade K9 do batalhão.

Mas há uma vida para esses animais fora do “ambiente de trabalho”? Ficamos curiosos com a questão, e fomos ver isso de perto.

Hoje, a unidade K9 (do inglês, “ca-nine” 🙂 ) da cidade conta com seis cães, estando um ainda em fase de teste. Todos eles são Pastores-belga Malinois, (atualmente a raça padrão da Polícia Militar de Santa Catarina), conhecida pelo vigor, agilidade, versatilidade e excelente faro.

k9 jaragua do sul

Os cães do K-9: Eros (D), Conan, Aron, Taison, Odin e Astro. Foto: Ricardo Treis

Cada cão tem um único tutor (o policial responsável), que conduz seu treinamento de acordo com as habilidades percebidas. Esse treinamento e as funções que eles vão exercer variam desde o faro de drogas e explosivos, busca e captura, até guarda e proteção (veja o vídeo abaixo). Cada cão exerce no mínimo duas dessas funções.

Mas o convívio dessas duplas não é feito apenas de trabalho. Ao fim do dia e nas folgas, esses cães também têm a sua vida comum de pet. Fora do horário de trabalho, o animal vai para casa com o policial, e ambos também compartilham uma rotina normal.

Foto: Ricardo Treis

Soldado Cattoni e Eros. Foto: Ricardo Treis

Em casa é o período onde os animais descansam e relaxam, contando com passeios, banho e brincadeiras – assim como é a vida de qualquer pet. “Isso acontece para que eles possam se desligar um pouco da rotina policial. É um momento muito importante para o equilíbrio do cão, para que eles fiquem calmos na hora de trabalhar”, explica o Soldado Cattoni, tutor do cão Eros.

Segundo Cattoni, em lugares onde o cão fica só dentro do canil, eles podem apresentar problemas de comportamento, como ansiedade e agressividade. “Aqui, isso não acontece, a gente os leva pra casa e isso faz com que se sintam bem”, reforça.

E qual a atividade favorita deles? “Como pra todo cão, tudo que envolve morder”, disse Cattoni.

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Policiais à paisana. Foto: acervo pessoal Soldado Cattoni

Porém nem tudo é semelhante: na hora de cuidados como banho, por exemplo, os petshops são evitados. Um dos motivos é a cautela em não acostumar o cão ao contato com estranhos, mas o principal deles deixamos pelas palavras do Soldado Cattoni: “O cão sente a atenção que você está tendo com ele, isso reforça nossa relação de amizade”.

Foto: Ricardo Treis

Foto: Ricardo Treis

Além do Eros, Cattoni tem mais de 20 cães em casa (!!), o que prova como cães policiais também interagem bem com outras raças. “Quando ele chega em casa nem parece um cão policial, fica bem tranquilo mesmo”, afirma. E como poderia se esperar, Eros é o dominante na matilha, que curiosamente, passa ao comando de um pinscher quando este está ausente.

“Quando chegamos em casa o outro cãozinho chega se abanando e já deita de barriga pra cima, entregando o posto”, comentou com humor.

Eros sabe identificar bem a diferença entre o horário de trabalho e lazer. De manhã, quando o soldado começa a se arrumar para ir para o Batalhão, o cão começa a ficar atento e muda de postura. “Ele consegue entender bem quando é vida de cão ou de trabalho”, aponta.

Relação com os cães

Eros e Cattoni estão juntos há um ano e quatro meses, e a relação que os dois construíram é muito próxima e baseada na igualdade.

“Não posso tratar ele somente como uma ferramenta de trabalho, temos uma amizade fiel que é a mesma de qualquer outro pet”.

Segundo Cattoni, ele passa mais tempo com Eros do que qualquer outra pessoa.

Eros quando era pequeno. Foto: Maykon Lammerhirt /Agencia RBS

Eros quando era pequeno. Foto: Maykon Lammerhirt /Agencia RBS

Cattoni já teve outro cachorro, o Zeus, que faleceu em serviço em abril de 2014. “É muito difícil, é como perder uma pessoa muito próxima da família”, relembra, ao comentar de quanto valor tem essa parceira.

Cattoni e Zeus

Cattoni e Zeus

Zeus faleceu vítima de choque anafilático, decorrido por ataque de abelhas durante uma operação na mata, em Blumenau. Atrás de assaltantes em fuga, a dupla deparou-se com uma colméia, e dada a mata fechada, sofreu muito até livrar-se do enxame de insetos. Apesar das diversas picadas, Zeus continuou no posto. “Ele estava parando aos poucos, mas não desistiu”. Foi tarde demais quando descobriram que o cão era alérgico.

Após o fato, Cattoni, já formado cinotécnico, se especializou ainda mais. Hoje acompanha o equipamento de operações um kit com soros, medicamentos e equipamento de primeiro socorros, a fim de evitar futuras perdas.

Cattoni está há 12 anos na polícia, mas conta que a entrada no setor K9, alguns anos atrás, foi o que definiu sua paixão profissional. Criado no interior, seu interesse por animais já havia levado ele a, mesmo criança, haver treinado de forma amadora um cão no sítio dos pais. É uma fantástica história de afinidades encontrando-se.

Canil em Jaraguá do Sul

A unidade K9 em Jaraguá do Sul foi implantada em 2011 e é uma das unidades modelo do Estado. Conforme Cattoni, equipes de outras cidades vem até o Batalhão para fazer o treinamento, o que comprova a qualidade da preparação dos animais. “Todos os cães que temos aqui tem pedigree, tem uma linhagem de trabalho”, reforça.

Eros, por exemplo, é o único cão capaz de farejar explosivos no Estado.

Foto: divulgação

Foto: divulgação

Um treinamento deveras interessante que está em desenvolvimento com Eros é o de busca e captura. Cattoni, inclusive, nos convidou para um desafio “Podem se esconder onde for pela cidade. Se fugiram a pé, os cães podem encontrá-los com até sete horas de diferença”, disse, citando treinamentos já feitos no calçadão, Scar e outros locais da cidade.

Interação com público

Os cães saem nas ruas jaraguaenses e em eventos acompanhados dos policiais, mas conforme o soldado, a interação do público precisa ser bastante cuidadosa. Isso porque um dos treinamentos do cão é o de guarda e proteção, ou seja, o cuidado com a vida do policial. “Se alguém se aproximar com uma atitude muito brusca, ele pode interpretar como um gesto de agressão ou ameaça”, explica.

k9 público

Cattoni recomenda que quem quiser se aproximar deve primeiro cumprimentar o policial, perguntar se está tudo bem a aproximação, e então fazê-la devagar. As pessoas nunca devem tocar no cão.

“Ele não pode entender que todos são amigos dele, que todos podem chegar e tocar e fazer carinho, pois uma pessoa pode estar mal intencionada e vou precisar de uma atitude rápida dele”, explica.

Integra, porém, dentro da PM, um programa que é o de cães treinados exclusivamente para ações sociais, que inclusive já teve interações aqui em Jaraguá do Sul.