Por: Sistema Por Acaso | 16/08/2013

Dias atrás, minutos antes de iniciar a sessão de autógrafos de “Arrumadinhas”, eu tinha um problema a ser resolvido e achei que o tinha solucionado. Acontece que os personagens das minhas crônicas haviam confirmado presença no evento e este autor tinha o desejo de fazer uma fotografia com cada um deles (as). Porém, alguns pediram encarecidamente que eu não revelasse perante seus cônjuges e afins, as suas participações no livro. Um camarada salientou: “Lamas, sabe como é mulher, né? Elas pensam que a gente não teve passado ou melhor querem acreditar nisso!”.

A minha tarefa era controlar para não confundir aqueles que não deveriam ser identificados com os que poderiam ser reconhecidos como colaboradores. Não seria muito fácil, pois o calor da emoção poderia me confundir. E as fotos que eu fazia questão de ter com cada um deles? Este problema, quem resolveu foi a querida Thays, a fotógrafa oficial do evento: “Marcelo, a gente bate foto de todo mundo!”. E assim estava montado o plano perfeito: Eu concentrado para não fazer confusão e sendo discreto e a Thays que ficou das 19 às 22h30min em pé na minha frente, com a sua máquina profissional em punho clicando todo mundo que passava pela mesa de autógrafos. Fui pra casa com a sensação de dever cumprido, de não ter entregue ninguém, um tipo de crime que nem o Cristianismo perdoou.

No dia seguinte, fiquei sabendo que não foi bem assim. A mulher de um dos meus comparsas já estava desconfiada da participação dele no livro. Começou quando ela questionou:

– Nós vamos no lançamento do livro do Lamas?
– Claro que sim! Tenho obrigação moral de ir!
– Como assim “obrigação moral”? Tem história tua no livro?
– Não! Claro que não! É que o Lamas é meu amigo.

Na noite do evento, ela já estava “arrumadinha” e chegando na sala, espantou-se:
– Ué?! Por que você colocou a camisa nova que te dei?
– Amor, nós não vamos sair juntos? Então, coloquei a camisa.
– Estranho?! Quando sugeri que você a colocasse no casamento que fomos, você disse que ia guardar para uma ocasião especial. Hoje é uma ocasião especial?
– Amor, claro que sim! O Lamas é meu amigo.
– Ah! Sei…

Quando chegaram à biblioteca, já havia uma movimentação, música tocando e o meu amigo, ao invés de abrir a carteira e pegar “vintão” pra pagar o livro, apenas disse seu nome e a recepcionista entregou-lhe um exemplar. A esposa estava ligada:
– Por que os outros estão comprando livros e você ganhou?
– Amor, eu não ganhei. Tinha uma lista de compra antecipada e eu garanti o meu. Apenas deixei para retirá-lo aqui.
– Ah! Sei…

No dia que meu amigo contou-me estas passagens, disse que o agravante foi a intensidade do abraço que eu lhe dei no evento. E pra piorar, eu teria escrito na dedicatória:

“Ao amigo Xxxxx, cujas nossas conversas sempre rendem boas histórias”.

Disse ele que desde então a guria não solta o livro e falou que vai achar a “crônica proibida” dele.

Ela jurou que o “mataria” se achasse algo. E ele disse-me que se ela achar “teremos um escritor a menos em Jaraguá do Sul”, antes dele morrer.

Preciso decidir o que vou fazer primeiro: o testamento com meus livros e minha coleção de camisetas de futebol ou começar a me despedir.

Como alertou Millôr Fernandes: “Quando se começa a duvidar de uma pessoa, já não há a menor dúvida”.

 

Marcelo Lamas, autor de “Arrumadinhas”.
marcelolamas@globo.com