Por: Gabriela Bubniak | 13/09/2017

Qual o seu maior sonho? Pare para pensar se você largaria tudo o que tem hoje, e tudo o que conquistou – mas tudo mesmo – para viver este sonho. Vamos combinar que é uma decisão super difícil! Mas teve um jaraguaense que tomou coragem e largou tudo para viver do Jiu-jitsu.

O atleta Fabio Guedes, de 38 anos, abandonou uma vida estável e muito confortável, aqui em Jaraguá do Sul, com casa própria, carro, viagens e até a família pelo sonho de viver do esporte. Hoje ele vive sozinho, em uma favela de São Paulo, e encontrou na venda de balas sua forma de sustento.

Parece loucura, não é? Mas na vida temos escolhas e essas escolhas devem ser as que nos fazem feliz, certo? E foi exatamente isso que o Fábio colocou na balança. Nós conversamos com ele pra conhecer um pouquinho mais da vida dele e saber o que fez ele mudar.

Formado da Universidade de Cambrige, na Inglaterra, uma das universidades mais conceituadas do mundo, escreveu três livros em inglês e tinha um padrão de vida alto aqui em Jaraguá. Era proprietário de uma escola de inglês e ainda trabalhava como professor em Joinville, garantindo uma boa renda. “Tudo o que eu quis comprar eu comprei, e podia fazer tudo o que eu queria sempre”, conta Fábio.

Na foto, Fabio com um dos livros em inglês que ele escreveu

Mas chegou um momento que ele começou a se questionar se era aquilo mesmo que ele queria, e como seria no futuro. “Eu desanimei, porque eu via que muitos alunos não queriam estudar inglês, mas ganhar o diploma sem esforço”, relembra.

Foi aí que o jaraguaense entrou em depressão, sem ter mais muitas perspectivas na vida. Até que um amigo levou ele para uma academia de Jiu-jitsu e foi amor à primeira vista pelo esporte. Ele vendeu a escola, abriu um estabelecimento em Jaraguá no ramo da alimentação saudável e continuou treinando. Mas não demorou muito para ele decidir pela vida de atleta.

Aqui em Jaraguá ele fazia aulas pelo Jaraguá BJJ/Clube Baependi

Assim que tomou a decisão pela mudança de vida, Fabio viajou pelo Brasil e pelo mundo em busca de um centro de treinamento conceituado, para que eu pudesse realmente viver do jiu-jitsu. Até que chegou ao Projeto Social Cícero Costha, em São Paulo, e em 2014 se mudou para lá.

Morou por dois anos no alojamento da academia, perdeu 24 quilos e parou de fumar. E pela renovação física, ele substituiu o cigarro pelo pirulito, e é daí que veio o apelido: “Pirulito”.

“Aqui na academia o treino é muito mais pesado, pois vivemos para isso e estamos competindo o tempo todo. É outro ritmo, por isso é muito difícil ser um atleta que compete e nível mundial e trabalhar ao mesmo tempo. Se eu arrumasse um emprego de 8h diárias aqui, por exemplo, meu rendimento diminuiria muito no tatame e não conseguiria conciliar tudo para competir”, explica Fabio.

Como a maioria dos atletas do país, ele não tem patrocínio, e para garantir o sustento e ainda pagar as viagens e competições, ele veste o quimono, coloca a medalha de ouro no pescoço e vai pras ruas vender balas no sinaleiro. De pouquinho em pouquinho consegue uma renda razoável para sobreviver e viver o esporte que ama.

Natural de Florianópolis, e jaraguaense de coração, hoje ele mora em Heliópolis, a maior favela de São Paulo, já soma três anos em SP, cinco anos de jiu-jitsu e coleciona mais de 150 medalhas. Na categoria master é bicampeão brasileiro, sul-americano e mundial.

Uma vez por mês ele tenta vir para Jaraguá visitar a namorada, que apoia todo esse esforço que ele faz pelo projeto. “Eu sinto falta de Jaraguá, é uma cidade muito boa e tranquila de se viver. E confesso que sinto falta de ter uma boa condição financeira, afinal tem dias que eu abro a carteira e não tenho nada além do suficiente para me sustentar”, conta. “Mas é um esforço que vale a pena, porque sei que vou chegar no tatame e me sentir muito feliz por essa escolha.”

Para o futuro, ele sonha em abrir uma escola Cícero Costha na Europa e disseminar o esporte pelo mundo. E em contrapartida, ganhar o suficiente para sustentar o projeto social que sonha para Jaraguá do Sul, atendendo crianças de forma gratuita e não dar brecha para que vivam nas ruas.

A história do Fábio chegou a virar matéria de TV e foi ao ar em rede nacional nos últimos dias. Alguém indicou a pauta depois de se deparar com o jaraguaense vendendo bala na rua. Assista abaixo: